O RACIONALISMO E A NOVA CONCEPÇÃO DE MÉTODO: UMA ANÁLISE DO DISCURSO DO MÉTODO DE RENÉ DESCARTES


Autor: CAVALINI, Gabriel
Publicado em: 10/11/2021

INTRODUÇÃO        

        As reflexões de René Descartes (1596-1650) a respeito da filosofia e da ciência expressas em seus escritos fomentarão a Revolução Científica no século XVII. Nele, encontramos a valorização de uma filosofia marcadamente científica, voltada para a valorização da razão e métodos de análise com vistas a obtenção de ideias certas, ante um contexto marcadamente cético. Imbuído pelo espírito de seu tempo e das transformações nele inerentes, elabora uma vasta literatura, sendo referido como o fundador da filosofia moderna.

 

PREMISSAS FUNDAMENTAIS

        O Discurso do Método (1637) de René Descartes, enquanto uma das primeiras manifestações de sua filosofia, expressa – e não poderia ser diferente –, o espírito seu tempo e as exigências impostas por ele. Estudar seu escrito é fazer referência a todo um meio de ideias no qual se formou o seu pensamento, que, segundo Galvão (2003), expressa tanto uma tentativa de se afastar desse meio, portanto, ruptura, como a adesão a seus laços invisíveis. Assim, tendo em vista compreender o objetivo do autor ao dissertar sobre o método, ou, pelo menos, as questões fundamentais que colaboraram e influenciaram a sua redação, convém fazer menção a dois movimentos substanciais.

        Primeiramente, é preciso fazer alusão ao contexto escolástico. Conquanto escarnecida por todos os lados, a escolástica conservava no início do século XVII uma influência considerável, na medida em que continua sendo o respaldo teórico da filosofia oficial da Igreja e dos colégios; logo, salvaguardada pelos poderes públicos de outrora, quando configurada uma simbiose entre Estado e Igreja. Um de seus objetivos era a tentativa de organização racional do dado humano na perspectiva da fé por meio de instrumentos racionais de origem peripatética. Assim, afirmava-se a fé e a razão como duas instâncias provenientes de Deus. Porém, não uma razão absoluta, mas sim, a aceitação do controle dela pela fé.

          Sabe-se que Descartes teve toda uma formação escolástica por meio dos colégios jesuítas de seu tempo hegemonicamente humanista. Como afirma o autor, “fui alimentado com as letras desde minha infância, e, por me terem persuadido de que por meio delas podia-se adquirir um conhecimento claro e seguro de tudo o que é útil à vida, tinha um imenso desejo de apreendê-las” (DESCARTES, 2003, p.8). Segundo Galvão (2003), a inovação de Descartes no que tange a escolástica não consiste em substituir a evidência da autoridade pela autoridade da evidência, mas no fato de ter inaugurando uma reflexão independente da fé. Desse modo, manifesta-se uma certa autonomia da filosofia moderna com Descartes.

          Uma outra questão que deve ser levada em consideração é a influência que o Renascimento exerceu em seu pensamento. No que tange à questão, assim como no caso da escolástica acima referida, é preciso enxergar uma continuidade da filosofia posta, como, também, uma ruptura da ordem vigente. A respeito da primeira questão, sabe-se que o Renascimento representa um período de constantes transformações e conquistas sociais. Segundo Balbino (2002), a crise no sistema feudal chega por meio de consequências que lhe são devastadoras, no sentido que provocam uma profunda transformação na visão de mundo e de homem. Além disso, as grandes descobertas desse contexto ampliaram ainda mais a imagem do mundo e os conhecimentos dos homens, favorecendo um apreço pelo pensamento autônomo. Sob este aspecto, Descartes é herdeiro, ao mesmo tempo que critica Aristóteles e a escolástica. Porém, conforme salienta Galvão (2003), o Renascimento ao mesmo tempo que abriu as portas para novos horizontes, permitiu a entrada do ceticismo, favorecendo uma filosofia resignada a separação entre a sabedoria e a ciência. A este respeito, Descartes representa uma ruptura, porquanto não pode admitir a ideia de uma ciência incerta e nem mesmo uma sabedoria desenvolvida fora da ciência. Tal questão corrobora a afirmação de Descartes como contemporâneo de uma prodigiosa revolução científica.

          A partir desse contexto de ceticismo posto pelas diferentes transformações sociais, começa a surgir, no fim do século XVII, um movimento contra esse impasse metodológico posto, no sentido de que era preciso fundamentar um método que fosse seguro, à prova dos erros passados (BALBINO, 2002). Assim, incentiva-se a inauguração de uma nova fase que pudesse dar sustento às novas descobertas e favorecer um percurso a ser trilhado pela humanidade fundamentado na certeza. Tal intenção é empreendida em seu livro Discurso do Método.

 

O DISCURSO DO MÉTODO E AS REGRAS DO MÉTODO CIENTÍFICO

           Publicado em Leiden, Holanda, em 1637, o Discurso do Método se constitui como a primeira publicação de Descartes – embora não seja o primeiro livro a ser escrito. Sabe-se que quando jovem, o filósofo redigiu inúmeras notas sobre variados assuntos, bem como, anos mais tarde, os primeiros esboços do que seria sua metafísica e a conclusão de seu livro O mundo. Porém, por conta do conteúdo exposto no presente livro, fortemente marcado pela problema da luz, e tendo em vista a condenação dos escritos de Galileu Galilei (1564-1642) pelo Santo Ofício, tudo indica que Descartes renunciou à publicação dele.

             O Discurso do Método, ao lado de suas Meditações (1641), Princípios de Filosofia (1644) e Regras para a direção do espírito (1684), se apresentam como a base da sua epistemologia, sistema que ficou conhecimento como cartesianismo. Cabe ressaltar que esse escrito se constitui como uma prévia de suas Meditações, dado que o filósofo discute o mesmo tema, porém, de uma maneira mais simples e resumida. Seja como for, nele encontramos o propósito do autor se corresponder com uma filosofia respaldada em ideias certas ante um contexto marcadamente cético.

Descartes inicia seu discurso apresentando a razão humana como questão fundamental e essencial em todo o ser humano: “o bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo [...]” (DESCARTES, 2003, p.5). Tal afirmação, já postulada pela tradição filosófica, será corroborada por Descartes como base do método a ser construído:

E não conheço outras qualidades, além destas, que sirvam para a perfeição do espirito; pois, quanto à razão ou senso, visto que é a única coisa que nos torna homens e nos distingue dos animais, quero crer que está inteira em cada um, visto seguindo a opinião comum dos filósofos, que dizem que só há mais e menos entre os acidentes, e não entre as naturezas dos indivíduos de um mesma espécie (DESCARTES, 2003, p.6).

           Assim, o método a ser proposto por Descartes encontra na razão o seu fundamento. Este aspecto racionalista de Descartes manifestado em seu Discurso se distingue da produção do conhecimento anterior ao apresentar algumas questões que lhe são próprias. A este respeito, cabe destacar, primeiramente, a utilização do francês como língua do Discurso e não o latim como era costume na época. Um outro aspecto consiste no fato do próprio autor ser o sujeito da discussão, ou seja, o Discurso do Método é escrito em primeira pessoa. Sabe-se que este tipo de escrito não era habitual na época, uma vez que era sinônimo de algo indigno, seja qual for a área ou aspecto em questão. 

         A utilização da primeira pessoa não é meramente uma opção metodológica entre várias que podem ser adotadas, mas expressa o objetivo de Descartes de enfatizar sua própria caminhada na busca do conhecimento: “[...] meu propósito não é ensinar aqui o método que cada um deve seguir para bem conduzir sua razão, mas somente mostrar de que modo procurei conduzir a minha” (DESCARTES, 2003, p.7), ou ainda: “[...] gostaria muito de mostrar, nesse discurso, quais são os caminhos que segui, e de nele representar minha vida como num quadro” (DESCARTES, 2003, p.7). Porém, tem a pretensão de trazer o leitor para essa caminhada, ou seja, espera sensibilizar os leitores para a missão que ele abraçou de modo a que aceitassem o método de boa vontade. Logo, Descartes joga a responsabilidade em continuar a construção da estrada rumo ao verdadeiro conhecimento para o leitor (BALBINO, 2002).

            Além disso, a estruturação lógica do Discurso, como certeza, verdade e evidência, estão no sujeito que pensa em Descartes, o que justifica a forma pelo qual é empreendido o discurso, tonando-se o pai da subjetividade moderna. Assim, Descartes elucida quatro métodos que, observados por quem quer que fosse, tonar-se-ia impossível tomar o falso por verdadeiro. A primeira etapa do método proposto consiste em “[...] nunca aceitar coisa alguma como verdadeira sem que a conhecesse evidentemente como tal” (DESCARTES, 2003, p. 23). Tal questão postulada por Descartes e tradicionalmente referida como a regra da evidência, expressa o entendimento de só acatar como verdadeiro aquilo que de fato se expressa como tal e, portanto, evitar toda e qualquer precipitação. Essa regra pressupõe uma suspensão do juízo, ou seja, a suspensão das certezas ou opiniões particulares do sujeito. Logo, só o que se apresenta como claro e distinto ao espírito humano pode ser aceito como verdadeiro, uma vez que não há qualquer possibilidade de dúvida. Segundo Riboulet (2020), essa regra é de uso constante na educação, na medida em que procura inspirar aversão pelo impreciso e obscuro e o amor pela clareza e precisão. Aliás, para se chegar a tal ponto, convém ir do concreto ao abstrato, do empírico ao racional e do conhecido para o desconhecido.

          A segunda etapa do método compõe-se em “[...] dividir cada uma das dificuldades que examinasse em tantas parcelas quantas fosse possível e necessário para melhor resolvê-las" (DESCARTES, 2003, p. 23). Esta etapa conhecida como regra da análise ou divisão apresenta a defesa do método analítico como o único capaz de levar à evidência, dado que, na medida em que desarticula o complexo no simples, permite o intelecto dissipar suas ambiguidades (REALE, 2004). Convém destacar que essa questão expressa a forma como ensinamos nos dias de hoje, isto é, a separação dos problemas em partes. Com esse método de começar pelas noções gerais e estudar, em seguida, cada uma das partes da lição, expressa, segundo Riboulet (2020), a importância soberana do método. Porém, segundo este autor, o método não é tudo em educação, dado que os espíritos não têm todos o mesmo valor. Tal questão parte do entendimento de que o mestre deve levar em conta os gostos e talentos de cada um, variando os seus procedimentos e fazendo tudo para todos a partir da adaptação dos métodos à ordem em que se desenvolvem as faculdades.

          Além disso, essa decomposição do problema permitiu um grande avanço do conhecimento matemático no século XVII. Segundo Balbino (2002), Descartes insere a matemática em seu método – considerada mal empregada em seu tempo por ele – na medida em que a considerava como uma das únicas ciências que apresentavam soluções certas e evidentes:

[...] considerando que entre todos aqueles que procuraram a verdade nas ciências, só os matemáticos puderam encontrar algumas demonstrações, isto é, algumas razões certas e evidentes, não duvidei de que deveria começar pelas mesmas coisas que eles examinaram (DESCARTES, 2003, p.24).

       Essa questão também é justificada na medida em que Descartes se impressiona com as demonstrações dos geômetras, de modo particular, suas cadeias de razões simples e fáceis. A partir delas, supõe que todas as coisas que podem ser objeto do conhecimento humano são conectadas da mesmas maneira:

Essas longas cadeias de razões, tão simples e fáceis, de que os geômetras costumam servir-se para chegar às suas mais difíceis demonstrações, levaram-me a imaginar que todas as coisas que podem cair sob o conhecimento humano encadeiam-se da mesma maneira (DESCARTES, 2003, p.23).

           Segundo Mancosu (2011), o estudo dos raciocínios caracterizados como certos e evidentes fundados na matemática não apresentam por objetivo em Descartes o conhecimento detalhado das ciências matemáticas, mas uma certa abstração do que há em comum entre elas. Porém, essa decomposição referida por Descartes precisa seguir uma ordem, qual seja, do mais simples ao mais complexo como uma espécie de degraus, o que reflete a terceira etapa de seu método: “[...] conduzir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir pouco a pouco, como por degraus, até o conhecimento dos mais compostos” (DESCARTES, 2003, p.23). Conhecida como a regra da síntese ou composição, trata-se de recompor a ordem ou criar uma cadeia de raciocínios que se desenvolva do simples ao complexo, sem deixar de ter uma correspondência com a realidade. Aliás, convém destacar que quando essa ordem inexiste, torna-se preciso conjecturar como hipótese mais conveniente para expressar o real (REALE, 2004). Desse modo, é indispensável fazer sempre revisões ou recapitulações, ou seja, voltar aos princípios fundamentais, uma vez que isso possibilita uma visão em conjunto, além de ser um meio de proporcionar convicções e conhecimentos sólidos (RIBOULET, 2020).

          A quarta e última etapa de seu método constitui em “[...] fazer em tudo enumerações tão completas, revisões tão gerias, que eu tivesse certeza de nada omitir” (DESCARTES, 2003, p.23). Este método conhecido como regra da revisão permite verificar se a análise se apresenta como completa, bem como, verificar se a síntese é correta.

          A partir das regras acima elucidadas, manifesta-se o papel da razão como aquela que, estando no cerne de seu método, guiará as ações humanas: “[...] o que mais me contentava nesse método era que por meio dele tinha certeza de usar em tudo minha razão, quando não perfeitamente, pelo menos da melhor forma em meu poder” (DESCARTES, 2003, p.26).

         A finalidade deste método é apresentada por Descartes poucas páginas antes de manifestar os passos. Ele utiliza uma analogia das construções empreendidas por um único homem e aquelas que passaram pelas mãos de vários homens, como no caso das antigas cidades que são constantemente reconstruídas. Sabe-se que não há tanta perfeição nas obras construídas por vários homens e compostas de várias peças como aquela que um único homem trabalhou. Porém, Descartes ressalta, concluindo sua analogia, que ninguém destrói cidades para reconstrui-las, mas usa tal empreendimento em suas próprias casas. Logo, não é possível a um único homem reformular todo o corpo das ciências como muitos postularam, mas é possível reconstruir a si mesmo por meio do abandono de suas opiniões em vista de um conhecimento alicerçado na razão:

[...] mas, quanto às opiniões que até então eu aceitara, o melhor que podia fazer era suprimi-las de uma vez por todas, a fim de substituí-las depois, ou por outras melhores, ou então pelas mesmas, quando eu as tivesse ajustado ao nível da razão (DESCARTES, 2003, p.18).

           Assim, os quatro preceitos postulados pelo filósofo se apresentam como uma maneira de proceder, e não um sistema transcendental. Segundo Philonenko (1996), tais preceitos são regras de vida prática, não compreendendo uma necessidade apodíctica em si, mas apenas um valor pragmático. Regra esta que Descartes postulou para si, porém, com a pretensão de ser adotada por outros tal qual já fora elucidado.

          Porém, embora apresente a necessidade dessa reconstrução, cabe ressaltar que, contraditoriamente, defenderá a manutenção da ordem posta, além de refutar qualquer caráter revolucionário de suas ideias, no sentido de que filosofia não faria alusões a questões sociais e políticas. Tal afirmação é postulada por Descartes logo depois de apresentar os quatro passos do métodos, onde menciona a necessidade de formar uma moral provisória enquanto o conhecimento é reconstruído:

A primeira era obedecer às leis e aos costumes de meu país, conservando com constância  religião na qual Deus me deu a graça de ser instruído desde minha infância, e governando-me em qualquer outra coisa segundo as opiniões mais moderadas e mais afastadas do excesso, que fossem comumente aceitas e praticadas pelas pessoas mais sensatas entre aquelas com quem teria de conviver (DESCARTES, 2003, p.27).

          Além disso, Descartes postula a necessidade de ser o mais firme e resoluto que pudesse em suas ações, tendo em vista não seguir opiniões duvidosas, bem como, procurar vencer a si mesmo do que a fortuna e modificar antes seus próprios desejos do que a ordem do mundo (DESCARTES, 2003). Tais questões elucidadas corroboram o caráter contraditório de uma filosofia que, ao mesmo tempo em que oferece uma saída ao impasse metodológico posto pelo ceticismo, submete-se às autoridades competentes de seu contexto.

 

A DESCOBERTA DO COGITO COMO EXPRESSÃO DO RACIONALISMO

             Embora a filosofia de Descartes expresse o combate ao ceticismo presente em seu contexto, o autor utilizará de tal metodologia como ponto de partida na descoberta do cogito tal qual exposto na quarta parte de seu discurso. Segundo o autor:

[...] como então desejava ocupar-me somente da procura da verdade pensei que precisava fazer exatamente o contrário e rejeitar como absolutamente falso tudo em que pudesse imaginar a menor dúvida, a fim de ver se depois disso não restaria em minha crença coisa alguma que fosse inteiramente indubitável (DESCARTES, 2003, p.37).

          Assim, Descartes utiliza de uma metodologia que nega algumas coisas aparentemente existentes na busca de encontrar uma certeza que fosse certa e indubitável. Primeiramente, “[...] quis supor que não havia coisa alguma que fosse tal como eles nos levam a imaginar” (DESCARTES, 2003, p.37). Depois, “[...] rejeitei como falsa todas as razões que antes tomara como demonstrações” (DESCARTES, 2003, p.38). Por fim, “[...] resolvi fingir que todas as coisas que haviam entrado em meu espírito não eram mais verdadeiras que as ilusões de meus sonhos” (DESCARTES, 2003, p.38). Segundo Balbino (2002), Descartes radicaliza a dúvida ao rejeitar como falso tudo aquilo que fosse passível de ser duvidado. Assim, rejeita o conhecimento sensível, na medida em que os sentidos podem nos enganar; rejeita o conhecimento proveniente dos antigos, dado que que os mais sábios podem se enganar das coisas mais simples; e rejeita até o conhecimento proveniente de sua próprias observações, uma vez que algumas delas poderiam ter origem em seus sonhos enquanto dormia.

          Esse procedimento realizado por Descartes leva a descoberta do cogito, fundamento de sua filosofia:

Mas logo depois atentei que, enquanto queria pensar assim que tudo era falso, era necessariamente preciso que eu, que o pensava, fosse alguma coisa. E, notando que esta verdade – penso, logo existo – era tão firme e tão certa que todas as mais extravagantes suposições dos cépticos não eram capazes de a abalar, julguei que podia admiti-la sem escrúpulo como o primeiro princípio da filosofia que buscava (DESCARTES, 2003, p.38).

          Descartes constrói sua filosofia a partir da descoberta do cogito, não enquanto uma construção filosófica, mas constatação pura, ou seja, não é um raciocínio dedutivo, mas uma intuição sem mediação demonstrativa. Tanto é, que autor afirma, em decorrência dessa premissa, não ser necessário sequer a existência do corpo para a existência do ser pensante, isto é, da alma – questão esta que manifesta seu forte dualismo. Além disso, convém salientar outra questão decorrente dessa premissa, que consiste na existência de Deus. Para chegar a tal conclusão, Descartes procura entender de onde provém a noção de um ser mais perfeito que ele mesmo, chegando a duas conclusões. A primeira, consiste no fato de que não podia tirar do nada a noção desse ser mais perfeito, ao mesmo tempo em que deveria ter vindo de uma natureza fora de si. A segunda, seguindo a mesma perspectiva da anterior, postula a noção de uma ideia mais perfeita que si como consequência de algo menos perfeito como repugnante e absurda. 

          A partir de tais reflexões, Descartes chega à conclusão de que essa ideia só podia ser inata e, portanto, posta por uma natureza superior, mais perfeita que a sua. Além do mais, “[...] já que eu conhecia algumas perfeições que não possuía, não era o único ser que existia [...], mas necessariamente devia existir algum outro mais perfeito, do qual eu dependesse, e do qual tivesse adquirido tudo quando tinha” (DESCARTES, 2003, p.40). Assim, Descartes insere Deus em sua Filosofia, compreendido como uma ideia inata e uma substância infinita, eterna, imutável e independente, da qual o eu próprio e todas as outras coisas que existem foram criadas e produzidas. 

          Descartes continua a sua reflexão ao longo da quinta e sexta parte do Discurso, onde apresenta a ordem das questões de física que examinou, a diferença entre a alma humana e a dos animais, bem como, as coisas que ele julga necessárias para ir mais além na investigação sobre a natureza. Porém, julga-se como suficiente a análise empreendida até aqui, tendo em vista a explanação de seu método e racionalismo.

          Como já salientado ao longo da discussão, o Discurso do Método se apresenta como uma prévia do que é suas Meditações, onde apresenta as mesmas questões, porém, de uma maneira mais profunda e detalhada, principalmente no que tange ao ceticismo de seu tempo. Seja como for, o Discurso do Método de Descartes satisfaz o problema da fundamentação do método de pesquisa em seu contexto, na medida em que a evidencia que fora posta de modo hipotético e é confirmada pelo cogito, além do fato deste ser reforçado pela presença de Deus na criatura que garante sua objetividade.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

                 Ante todo o exposto, vê-se que em um tempo em que há múltiplas certezas e um ascendente dogmatismo, marcado por um mundo polarizado, pouco afeito a sínteses e ponderações, abordar a dúvida como um esforço metodológico é uma solução que viabiliza a construção de um conhecimento menos inseguro. Descartes propicia uma chave interpretativa para a intolerância hodierna, porquanto coloca que nada, a princípio, pode escapar do crivo da dúvida. Entretanto, não se trata de um processo cético que vê no exercício dubitável uma finalidade, mas trata-se da dúvida construtiva, que visa esta apenas enquanto meio fomentador de uma descoberta clara e evidente: penso, logo existo. Pensamento e existência, portanto, correlacionam-se e são capazes de juntos, ante o nosso contexto polarizado e dogmático, romper com a intolerância e garantir padrões aceitáveis de objetividade.

 

REFERÊNCIAS

 

BALBIANO, Cócis Alexandre dos Santos. Alguns comentários sobre o Discurso do Método de Descartes. Revista Pedagógica, UNOCHAPECÓ, ano 4, nº9 – jul/dez 2002.

DESCARTES, René. Discurso do Método. Trad. Maria Ermantina Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2003. 102p.

GALVÃO, Maria Ermantina. In: DESCARTES. Discurso do Método. São Paulo: Martins Fontes, 2003. 102p.

MANCOSU, Paolo. Descartes e a matemática. In: BROUGHTON, Janet; CARRIERO, John [organizadores]. Descartes. Porto Alegre: Penso, 2011. 540p.

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia: do humanismo a Descartes. São Paulo: Paulus, 2004.

RIBOULET, Louis. História da Pedagogia. v.III. Sertanópolis: Edições Liceu, 2020. 235p.

PHILONENKO, Alexis. Reler Descartes: o génesis do pensamento francês. Lisboa: Instituto Piaget, 1996.

 

 

 

 

 




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