A CREDIBILIDADE NO ÂMBITO TEOLÓGICO CRISTÃO


Autor: CAVALINI, Gabriel
Publicado em: 05/11/2021

          A necessidade de apresentar as razões da fé, levou a Teologia a dirigir-se aos homens nas diversas épocas histórias por meio de categorias de pensamento aptas para a comunicação. Essas categorias, entendidas como questão dos motivos racionais que levam os seres humanos às margens da fé sobrenatural, adquiriu, ao longo do tempo, diversos conteúdos, nos quais possibilitaram uma contribuição determinante para o tema da credibilidade. Entre os primeiros, podemos colocar santo Agostinho, que definia a questão da credibilidade como ato de pensar com assentimento, no sentido de que ninguém crê em alguma coisa se antes não pensou que devia crer nesta mesma coisa. Séculos seguintes, santo Tomás de Aquino coloca a dimensão do ato de crer a partir de uma realidade pessoal, visto que é Deus que se revela aos homens e, portanto, deve ser crido pelos mesmos.

          O Concílio de Trento (1545-1563), convocado pelo papa Paulo III, coloca a Revelação como o primeiro momento para a justificação, procurando equilibrar a posição de Lutero que evidenciava o caráter fiducial da fé. O Concílio Vaticano I (1869-1870), realizado três séculos depois, sintetizando todo o conteúdo proveniente da patrística e do período medieval, bem como do Concílio de Trento, afirmará definitivamente a fé como uma livre resposta do homem a Deus. Essa resposta, passa pela intervenção da graça divina, que ilumina a inteligência do homem e a dispõe para a Revelação. Isso quer dizer, que a fé não crê fundando-se, ou seja, não é uma evidência intrínseca como no caso da ciência, mas sim, fundando-se em uma evidência extrínseca. Portanto, os sinais provenientes da Revelação, se constituem como categorias que permitem ao homem, no ato de fé, corresponder às exigências de acordo com a razão.

          Estes sinais é o que podem garantir a credibilidade do que é exposto. Logo, são dados como conteúdos que, por serem conhecidos pela razão, por meio de suas próprias leis, são também capazes de serem cridos e acolhidos pelo ser humano, mediante um ato de vontade. O movimento manualístico procurava colocar essa questão a partir de um esquema de teologia da fé, ou seja, Deus que se dá a conhecer por meio da graça; a vontade, que permite ao crente por livre escolha ir até Deus e receber esta graça; e a inteligência humana, que garante ao homem estar na presença de um ato certo, visto que ele se chega como conclusão de um procedimento racional. O Concílio Vaticano II (1962-1965), por sua vez, a fim de esquecer a extrinsecismo da manualística, coloca novamente, como centro da reflexão teológica da credibilidade, a Revelação. Assim, a Revelação é recuperada no horizonte histórico-salvífico como dado primário, e a fé, consequentemente, como obediência do homem que, ao se entregar à Deus, se entrega com tudo aquilo que ele é e possui. Portanto, é referencial do evento revelador.

          Diante desses diferentes conteúdos a respeito da credibilidade, podemos colocá-la como um ato que não provém da simples subjetividade humana, mas antes de tudo, da objetividade do evento revelador. Credibilidade se apresenta ao ser humano como coerência profunda entre o que é e o que se deixa ver e compreender. Com efeito, credibilidade também significa estar em condição de ver realizada, no hoje da história, a plenitude vivenciada pelos primeiros cristãos, que entregavam a sua vida pela causa de Cristo. Aliás, a Revelação também se coloca como lugar em que as perguntas do homem de hoje encontram uma possibilidade de resposta satisfatória. Isso quer dizer, que a credibilidade é das razões que possibilitam a vida cristã não ser entendida apenas como resposta à pergunta sobre o sentido, mas é ao mesmo tempo, uma introdução a uma práxis, além de ser um exemplo de vida que permite no hoje da história, ver realizado o sentido prometido anteriormente.

          Colocado diante da evidência da Revelação, o sujeito a vê como significativa para si. Com essa ação, a credibilidade atinge o seu estádio de plenitude. Esse procedimento, pode ser visto na medida em que compreendemos algumas questões. Primeiro, que há uma condição transcendental do sujeito que o habilita à finalização de sua própria existência, pois, existe para cada um, a capacidade de perceber sentidos nas ações por parte do homem. Segundo que, para conhecer o verdadeiro Deus, é necessário a inteligência que o Filho ao se revelar na história humana nos possibilitou, ou seja, inteligência para adesão total se si ao mistério. Terceiro, Jesus como uma pessoa história, que, ao mesmo tempo, nos mostra o seu mistério e suscita no homem a capacidade para vê-lo como significativo. Jesus torna-se luz da vida e luz dos homens ao se tornar um homem histórico.

          Por isso, Jesus está em condições de encontrar-se com o homem contemporâneo na sua práxis, porque em si, enquanto filho de Deus, pode comunicar o mistério de seu ser. Não é qualquer amor que é revelado, mas o amor que atinge a pessoa no mistério mais profundo e pessoal. Só o amor permanece como última palavra que torna crível a Revelação, visto que, somente aqui o sujeito se reencontra, de maneira evidente, o equilíbrio de seu mistério, superando todas as dificuldades que uma teoria e práxis da fé poderia proporcionar.

 

 

REFERÊNCIAS

LACOSTE, Jean-Yves. Dicionário Crítico de Teologia. Trad. Paulo Meneses. 2. ed. São Paulo: Edições Loyola e Paulinas, 2014.

 

LAUTOURELLE, René; FISICHELLA, Rino. Dicionário de teologia fundamental. Trad. Luiz João Baraúna. Petrópolis: Vozes. Aparecida: Santuário, 1994.

 

 

 

 




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