CONVERGÊNCIAS E DIVERGÊNCIAS ENTRE O LIVRO I DO ENSAIO SOBRE O ENTENDIMENTO HUMANO DE LOCKE E A PARTE I DO LIVRO I DO TRATADO DA NATUREZA HUMANA DE HUME


Autor: CAVALINI, Gabriel
Publicado em: 05/11/2021

          John Locke, filósofo inglês e ideólogo do liberalismo, nasceu em 29 de agosto de 1632 em Wrington na Inglaterra, e morreu em 28 de outubro de 1704 em Harlow também na Inglaterra. Em sua obra Ensaio sobre o entendimento humano (1690), Locke tem o propósito de investigar a origem, a veracidade e a extensão do conhecimento, e quais são os fundamentos e graus da crença, da opinião e do assentimento. Locke pretende, portanto, mostrar o procedimento do entendimento humano.

          No livro I desse Ensaio, foco de estudo desse trabalho, John Locke apresenta primeiramente sua crítica ao inatismo, onde afirma a impossibilidade de existir princípios especulativos inatos na mente humana. A argumentação de Locke contra a tese da existência de princípios teóricos inatos centra-se na afirmação de que é impossível que haja no espírito algum conhecimento que ele ainda não conheça ou de que nunca tenha tido consciência. Para o filósofo, a nossa mente é uma folha em branco, uma tábula rasa, de modo que, quando nascemos, não possuímos qualquer conhecimento.

          Assim, segundo Locke, nascemos ignorantes e recebemos tudo da experiência. É através da experiência que se forma ideias em nossa mente. Logo, a mente humana é receptiva, e os sentidos são como um canal do nosso corpo em relação ao mundo. Para ele, se existissem conhecimentos inatos na mente humana, tal conhecimento estariam na mente das crianças e dos selvagens porque estes possuem alma. Pois, “dizer que ao mesmo tempo, uma noção está impressa no espírito e que este a ignora e nunca dela teve conhecimento, é o mesmo que dizer que tal impressão não é coisa nenhuma” (LOCKE, 2010, p. 33). Se não assentem com estas verdades, então é evidente que essas ideias não são impressões naturais, isto é, não são inatas.

          Os argumentos sobre os quais se apoia a teoria do inatismo (o consenso ou o assentimento universal, e a identidade da natureza humana), não têm valor de prova, porque o consenso universal não diz nada a respeito da origem das ideias, e a identidade da natureza humana não está provada. Portanto, não se deve aceitar sem questionamento e discussão, isto é, sem o uso da razão, ideias ou princípios como inatos. Para Locke, a única coisa que o ser humano possui quando nasce é a capacidade de conhecer.  Desse modo, Locke afirma que a capacidade é inata, mas o conhecimento é adquirido.

          Já David Hume, nasceu em 7 de maio de 1711 em Edimburgo na Escócia, e morreu em 25 de agosto de 1776 também em Edimburgo. Hume foi um filósofo, historiador e ensaísta britânico, apesar de ter nascido na Escócia, e se tornou célebre por seu empirismo radical. Em seu Tratado da natureza humana (1740), Hume pretende aplicar à natureza humana o método de raciocínio experimental, com o qual Isaac Newton (1642-1726) construiu uma sólida visão da natureza física.

          Na parte I do livro I desse Tratado, foco de estudo desse trabalho, Hume se ocupa do nosso “entendimento”, buscando compreender as nossas ideias, desde suas origens, composições, conexões e abstrações. Tanto Hume como Locke, elaboram o processo do entendimento humano e suas diversas implicações, desde a crítica ao inatismo, pois, para Hume, também não existe princípios inatos na mente humana, desde o processo de formação das ideias. Entretanto, na parte I do livro I do Tratado da natureza humana, Hume não terá como ênfase principal a crítica ao inatismo como Locke, mas sim, como já afirmado, o processo de nossas ideias.

          Desse modo, Hume inicia sua obra apresentando a origem de nossas ideias. Para ele, todos os conteúdos da mente humana são “percepções”, isto é, indicam tudo aquilo que se apresenta à mente humana e se constitui seu conteúdo. Essas “percepções” se divide em “impressões (simples ou complexas) ”, que são aquelas percepções originárias que se apresentam com maior força e violência; e as “ideias (simples ou complexas) ”, que são as imagens enfraquecidas que a memória produz a partir das impressões. Além disso, as impressões são subdivididas em “impressões de sensação”, que nascem na alma originalmente de causas desconhecidas; e as “impressões de reflexões”, que derivam em grande parte das ideias.

          Dessa questão, deriva o primeiro princípio da ciência da natureza humana, que, formulado sinteticamente, assim se expressa: “todas as nossas ideias simples, em sua primeira aparição, derivam de impressões simples, que lhes correspondem e que elas representam com exatidão” (HUME, 2009, p. 28). Esse princípio, segundo Hume, acaba com a questão das ideias inatas, que tanto barulho havia ocasionado anteriormente, principalmente com as críticas efetuadas por Locke como visto em sua obra. Assim, nós só temos ideias depois de ter impressões; estas últimas, ao invés, e somente estas, são originárias.

         Segundo Hume também, pela experiência, vemos que, quando uma determinada impressão esteve presente na mente, ela ali reaparece sob a forma de uma ideia, o que pode se dar pela faculdade da memória, da imaginação, ou podem ser agregadas em base ao importante princípio da associação. As propriedades que dão origem à associação das ideias são: a semelhança; a contiguidade no tempo e no espaço; e a causa e efeito. Para provar a validade de cada ideia complexa da qual se discute, portanto, é necessário acrescentar a relativa impressão.

          Percebe-se a partir das obras explanadas, que tanto John Locke quanto David Hume, foram importantíssimos filósofos para a formação do pensamento moderno, em especial, o empirismo, que valorizava a experiência como fonte de conhecimento. Além disso, percebe-se sua eficaz contribuição para a consolidação da ciência moderna começada por Bacon, e suas influências na psicologia através das questões epistemológicas, em especial, efetuadas por John Locke.

           John Locke, foi o fundador do empirismo crítico e o primeiro a formular de modo metódico o problema “crítico” do conhecimento. Seu pensamento abrange questões tanto da teoria do conhecimento, mas também, questões relacionadas a moral, a política, a pedagogia e a religião, que ainda se vê muito presente em nossa sociedade contemporânea. Sua teoria exerceu influência tanto sobre Hume, como também, sobre Leibniz (1646-1716) e Immanuel Kant (1724-1804). Além disso, influenciou o pensamento educacional moderno e contemporâneo e a filosofia analítica da linguagem.

            John Locke é um pensador que, de certo modo, revoluciona o pensamento de Aristóteles (384-322 a.C) e Descartes (1596-1650) sobre a teoria das ideias inatas, ao propor a teoria empírica, a qual acreditava que todos os conhecimentos do homem eram adquiridos pela experiência. Pois, segundo Aristóteles e Descartes, o homem já nascia com conhecimentos inatos. Desse modo, Locke retrata o pensamento crítico de seu tempo, no sentido de que ele assegurava que toda a afirmação deve ser comprovada por meio da experiência, tendo em vista que essas investigações podem desmascarar as falsas verdades contidas no discurso social.

          Já David Hume, desempenhou um papel muito relevante dentro da história do pensamento ao levar às últimas consequências a tradição intelectual originada e desenvolvida principalmente na Inglaterra. Hume também despertou Kant de seu “sono dogmático” e o fez criar a filosofia crítica, a partir da análise de causalidade. Além disso, foi um fator essencial na formulação do positivismo de Augusto Comte (1798-1857); no utilitarismo de Jeremy Bentham (1748-1832); na filosofia da ciência de Karl Popper (1902-1994); na semiótica de Charles Peirce (1839-1914); e no pensamento de John Stuart Mill (1806-1873).

          Sua teoria sobre a investigação da natureza humana, está em plena conformidade com as discussões contemporâneas que procuram debater temas pertinentes ao conhecimento à luz de ciências como as neurociências, ciências cognitivas e a própria biologia. Desse modo, percebe-se a influência de seu pensamento ainda hoje na contemporaneidade, contribuindo e auxiliando em novas descobertas científicas, de modo especial, nas relacionadas ao conhecimento.

 

REFERÊNCIAS

HUME, David. Tratado da Natureza Humana. 2 ed. São Paulo: Unesp, 2009. 759 p.

 

LOCKE, John. Ensaio sobre o Entendimento Humano. 4 ed. v. 1. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2010. 537 p.

 




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