A EVOLUÇÃO NA COMPREENSÃO DE REVELAÇÃO ENTRE OS CONCÍLIOS DE TRENTO E VATICANO II E SUAS CONSEQUÊNCIAS NA RELAÇÃO ENTRE ESCRITURA, TRADIÇÃO E MAGISTÉRIO


Autor: CAVALINI, Gabriel
Publicado em: 26/10/2021

          O tema da Revelação sempre esteve presente nas declarações do magistério conciliar ao longo do tempo, uma vez que é objeto central da Teologia. Todavia, como nos aponta Libanio (1992), o estudo da Revelação enquanto uma realidade explícita só fora realizada no início da modernidade, de modo particular, a partir do Concílio de Trento (1545-1536). Segundo Osto (2016), isso se justifica por um motivo muito simples. Desde os primórdios da Idade Média, imperou na Europa uma homogeneidade de pensamento e, ao mesmo tempo, uma tranquilidade na fé dos cristãos. Os Santos Padres da Igreja, por exemplo, ou até mesmo Santo Tomás de Aquino na alta Idade Média, não tinham preocupação com a elaboração de uma Teologia Fundamental, pois, os fundamentos da fé cristã não estavam abalados.

           É no início da modernidade que houve a necessidade, por parte da Igreja, de uma elaboração mais aprofundada do conceito de Revelação, visto que, a homogeneidade de pensamento presente até o fim da Idade Média deixa de existir. Osto (2016) apresenta três acontecimentos principais que justificam essa mudança de pensamento no início da modernidade. Primeiro, temos a reforma protestante, na qual questionava bruscamente a autoridade da Igreja Católica de interpretar o mistério da Revelação. Para o protestantismo, a Revelação parte de aspectos subjetivos, ou seja, sola scriptura, sola fide e sola gratia, enquanto a Igreja Católica partia dos aspectos objetivos da Revelação, de modo particular, com a Tradição e o Magistério.

        O segundo aspecto mencionado pelo autor, consiste no movimento deísta, que afirmava a existência de um Deus arquiteto, ou seja, um Deus acessível a razão humana. Surgido no contexto do Iluminismo, ele coloca a razão como a única forma de conhecimento humano, e, portanto, qualquer revelação era questionada em sua totalidade, uma vez que ultrapassa a realidade natural. O terceiro e último aspecto mencionado pelo autor, se refere aos ateus e libertinos, que, por meio de uma mentalidade racionalista e subjetivista, questionava a própria existência de Deus, além de lutar contra toda forma de religião.

          O Concílio de Trento – primeiro no qual encontramos uma compreensão mais aprofundada do mistério da Revelação –, teve como objetivo principal contrapor-se a reforma luterana. Todavia, esse Concílio não se utiliza da palavra “Revelação” em seus decretos, mas sim, “Evangelho”, buscando apresentar a Revelação como o conteúdo de uma palavra, que foi prometida desde os profetas, expressada por Cristo, anunciada por meio dos apóstolos e transmitida pela Igreja ao longo dos séculos (OSTO, 2016). Para Latourelle (1985), ele limitou-se a afastar todo o perigo trazido pelos reformadores de uma atenção exclusiva à Escritura em negação à Tradição da Igreja. Assim, o Concílio procurou sustentar que a tradição não escrita, bem como a Escritura, são os dois meios de acesso à Revelação.

        É somente no século XIX, com o Concílio Vaticano I (1869-1870), que encontraremos uma manifestação clara a respeito da Revelação divina. Este Concílio, também foi celebrado em um período de intensas transformações políticas e sociais. No entanto, diferentemente do Concílio de Trento que terá a reforma protestante como auge, esse Concílio terá o auge da modernidade e do pensamento científico, nos quais questionaram várias questões de fé e de organização da Igreja. O racionalismo cartesiano, apostando nos poderes ilimitados da razão humana, nega a autoridade da Igreja e a fé oriunda da tradição; a ciência experimental afirmava que o conhecimento autêntico é aquele que provém unicamente da natureza e da razão, negando assim, qualquer tipo de conhecimento sobrenatural. Segundo Libanio (1992), também encontramos nesse contexto correntes fideístas e tradicionalistas, nas quais, em última análise, anulando a razão, punham em xeque a própria fé.

           Diante disso, o Concílio procurou encontrar um equilíbrio entre o racionalismo, fideísmo e tradicionalismo, atestando o valor da razão em oposição a um enfraquecimento racional fideísta, entretanto, em oposição à autonomia absoluta da razão (LIBANIO, 1992). Com a Constituição Dogmática Dei Filius, promulgada em 24 de abril de 1870, vários temas foram abordados, em particular, a Revelação. Essa Constituição Dogmática, apresenta a existência de duas vias pelas quais o homem chega ao conhecimento de Deus: verdades naturais e verdades sobrenaturais. A primeira, diz respeito ao conhecimento natural da razão humana por meio das coisas criadas, ou seja, o homem, por intermédio da razão e das criaturas, pode chegar ao conhecimento de Deus. A segunda, se refere ao Deus, que pela sua bondade infinita se dá a conhecer gratuitamente, ou seja, se auto revela e revela a sua vontade (DEI FILIUS, II, §1). Retomando as posições do Concílio de Trento, o Concílio Vaticano I reafirma a Escritura e a Tradição como fontes da Revelação, sendo o Magistério aquele competente para interpretar e explicar os conteúdos revelados.

           Dando continuidade ao Concílio Vaticano I, o Concílio Vaticano II (1962-1965) traz novamente o tema da Revelação. Aliás, é nesse Concílio que encontramos o trabalho mais fantástico, ou seja, com mais afinco e estreiteza sobre o tema da Revelação. Esse Concílio Ecumênico, não tem como preocupação, definir verdades contra adversários, mas foi convocado como resposta e diálogo ao mundo contemporâneo por meio de um espírito pastoral e ecumênico (LIBANIO, 1992). As conclusões sobre a Revelação foram agrupadas na Constituição Apostólica Dei Verbum, a qual descreve equilibradamente os diversos aspectos da Revelação e de suas fontes.

          Segundo Osto (2016), diferentemente do Concílio Vaticano I no qual tratava da manifestação de Deus na realidade natural, passando por sua manifestação sobrenatural, o Concílio Vaticano II parte da Revelação pessoal de Deus e de seu desígnio salvífico. Essa Revelação, faz parte da realidade ontológica de Deus, no sentido de que é da natureza Deus revelar-se: “Aprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-se a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade, segundo o qual os homens, por meio de Cristo, Verbo encarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e se tornam participantes da natureza divina” (DEI VERBUM, § 2, p. 348). Assim, a Revelação é uma ação trinitária, ou seja, ação do Pai que toma a iniciativa, ação do Filho que, enviado pelo Pai, se releva aos homens e os faz participantes de sua natureza divina, e ação do Espírito Santo que transforma o coração do homem efetivando o dom da Revelação. Nesse sentido também, a Revelação se dá por meio de um caráter dialógico, pois, “Deus invisível, no seu infinito amor, fala aos homens como amigos e conversa com eles, para os convidar e admitir a participarem da sua comunhão” (DEI VERBUM, §2, p. 348).

          Esse Concílio, além de colocar a Revelação como iniciativa de Deus de auto manifestar e auto comunicar ao homem, também descreve equilibradamente os diversos aspectos da Revelação e de suas fontes, isto é, da Escritura, Tradição e Magistério, como realidades intimamente interdependentes. Como no tema da Revelação, é no Concílio Vaticano II que encontramos uma das mais belas teorias a respeito dessa ligação. Além do mais, foi o tema da Revelação que possibilitou a Igreja uma maior compreensão dessa relação, principalmente frente as dificuldades ocasionadas pela reforma protestante. Segundo o Concílio Vaticano II, Tradição, Escritura e Magistério não se podem separar: os três juntos, cada qual a seu modo, concorrem eficazmente para a salvação das almas. Desta forma, ambas devem ser aceitas e veneradas com igual afeto de piedade (DEI VERBUM, §9). Por conseguinte, “na sua doutrina, vida e culto, perpetua e transmite a todas as gerações tudo aquilo que ela própria é e tudo quanto ela acredita” (DEI VERBUM, §8, p. 353), isto é, membro de Cristo, Revelação do Pai, que constitui a Igreja como transmissora da Revelação. Com a mesma origem, a Tradição e as Escrituras possuem uma estreita relação, visto que, formam uma unidade e tendem para o mesmo fim. Para tanto, compete ao Magistério interpretar autenticamente a Palavra de Deus, em nome de Cristo, e perpetuá-la como Palavra de Salvação.

 

REFERÊNCIAS

LATOURELLE, René. Teologia da Revelação. 3 ed. São Paulo: Paulinas, 1985. 592 p.

 

LIBANIO, João Batista. Teologia da Revelação a partir da modernidade. São Paulo: Loyola, 1992. 479 p.

 

OSTO, Leonardo Lucian Dall. O conceito de revelação na Teologia Latino-Americana: uma abordagem a partir de João Batista Libanio. Porto Alegre: PUC-RS, 2016.

 

PAPA BENTO XVI. Exortação Apostólica Pós-sinodal Verbum Domini. 6 ed. São Paulo: Paulinas, 2014, 218 p.

 

PAPA PAULO VI. Constituição Dogmática Dei Verbum. In:_____ Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II. São Paulo: Paulus, 1997. p. 347-367.

 

PAPA PIO IX. Constituição Dogmática Dei Filius. Disponível em: <https://www.veritatis.com.br/constituicao-dogmatica-dei-filius-24-04-1870/>.




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