O CONHECIMENTO EM TOMÁS DE AQUINO


Autor: CAVALINI, Gabriel e OLIVEIRA, Ricardo Orlando
Publicado em: 20/12/2021

INTRODUÇÃO

 

       O presente estudo objetiva expor o pensamento de Santo Tomás de Aquino, com ênfase em sua teoria do conhecimento. Ao discorrer sobre tão relevante autor do período medieval, julga-se conveniente realizar uma breve contextualização de sua vida e obra. Em seguida, apoiando-se nos conceitos e pressupostos teóricos abordados pelo chamado “Boi Mudo da Sicília”, realizou-se uma síntese de sua teoria.

         Ao dedicar-se à tarefa de estudar o maior referencial da tradição escolástica, mostra-se possível identificar o quanto seu pensamento pode contribuir para a atualidade. Convém fazer enfoque especial na capacidade de síntese do autor, que com muita maestria soube dar respostas satisfatórias a indagações de seu tempo.

 

VIDA E OBRA

         Considerado por muitos o mais ilustre pensador da Idade Média, expoente máximo entre os escolásticos, e um dos maiores pensadores da história da humanidade, São Tomás de Aquino elaborou um sistema de pensamento filosófico teológico admirável pela transparência lógica e pela conexão orgânica entre as partes, além de uma intensa obra com mais de sessenta títulos. Tanto sua vida quanto sua filosofia estão relacionadas às questões que caracterizaram o século XIII, abrangendo todos os seus aspectos fundamentais.

          Italiano por parte de pai (Landolfo) e normando por parte de mãe (Teodora), Tomás de Aquino nasceu em 1225 no castelo de Roccasecca, perto de Aquino (Reino das Duas Sicílias). O fato de Tomás morar próximo a Montecassino, não dava muitas oportunidades a ele. Diante de tal situação, o pai de Tomás envia-o a um mosteiro beneditino (Abadia de Montecassino) quando ele tinha aproximadamente 5 anos, para que no futuro pudesse se tornar um abade, levado na esperança de que contribuísse para o brilho e o sobrenome da família.

        Tomás teve primeiramente uma formação beneditina, contudo, saiu do mosteiro quando tinha aproximadamente quinze anos, onde prosseguiu seus estudos em uma universidade em Nápoles.  Nesse período, entrou em contato com a ordem dos dominicanos, onde, atraído pela nova forma de vida religiosa, ingressou em 1224, e, de 1248 a 1252, foi discípulo de Alberto Magno.

          Em seguida, influenciado por seu mestre, muda-se para Paris, cidade na qual estudou e ensinou nas principais universidades europeias (Colônia, Bolonha, Roma, Nápoles), e obteve o título de doutor em teologia no ano 1259. Como resultado disso, produziu uma extensa obra, entre as quais se destacam os Comentários Sobre as Sentenças; Os Princípios; O Ente e a Essência; a Súmula Contra os Gentios; as Questões Sobre a Alma; as Questões Diversas; e, finalmente, a Suma Teológica, sua obra mais célebre, apesar de não concluída.

         Tomás foi surpreendido pela morte aos 53 anos, em 7 de março de 1274, no mosteiro de Fossanova, quando viajava para participar do Concílio por ordem do papa Gregório X. Cinquenta anos depois de sua morte, em 18 de julho de 1323, Tomás foi declarado Santo e Doutor da Igreja pelo papa João XII. Sua memória é celebrada em 28 de janeiro, data em que seu corpo foi traslado para Tolosa (França), em 1369.

 

QUESTÕES REFERENTES AO SER, AO ENTE, AO HOMEM E A ALMA NO PROCESSO DA ABSTRAÇÃO E DO CONHECIMENTO

          O doutor angélico elaborou diversas explicações sistemáticas quanto aos problemas filosóficos de grande relevância no período antigo e medieval. Dentre essas temáticas, vale mencionar a teoria do conhecimento. Tomás, assim como Agostinho, ousa postular seu pensamento sobre esse problema, chegando a conclusões importantes para a tradição filosófica posterior.

          Em sua obra intitulada Suma Teológica, na prima pars, a partir da questão 75, Santo Tomás faz uma abordagem a respeito do homem. A antropologia apresentada por ele propõe uma visão do ser humano como criatura, na qual há impressa uma natureza. Tal realidade essencial do homem o conduz a um retorno para o Criador – outro aspecto similar a filosofia agostiniana – Deus, que, por sua vez, é a origem de toda criatura e sua plena consumação.

          Ao dar início a discussão da natureza humana, o doutor angélico empenha-se em abordar as questões relativas à alma. Ele coloca na o artigo 2 da questão 75 que a anima é o princípio da operação do intelecto. Nesse sentido, o conhecimento, ou a abstractio, parte da atividade da alma, que é de natureza incorpórea e subsistente. Tomás infere tal conclusão com objetivo de refutar a ideia da corporeidade da alma:

Para que possa conhecer algo, não deve possuir nada em si de sua natureza, porque tudo aquilo que lhe fosse de natureza inerente o impediria de conhecer outras coisas. Por exemplo, a língua de um enfermo, biliosa e amarga, não pode perceber algo doce, pois tudo lhe parece amargo. Assim, se o princípio intelectual tivesse em si a natureza de algum corpo, não poderia conhecer todos os corpos. Cada corpo tem uma natureza determinada, sendo, por isso, impossível que o princípio intelectual seja corpo (AQUINO, 2002, p. 358).

          Sendo assim, a alma por não possuir corporeidade, pode abstrair as realidades corpóreas. Além dessa premissa, Tomás dedica os demais artigos da questão para defender que o homem é composto de corpo e alma, que a mesma não possui matéria e é incorruptível.

          Na questão 76, Tomás de Aquino defende que se faz necessário dizer que o princípio da ação intelectiva do homem é a forma de seu corpo. Nesse sentido, e em muitos aspectos, Tomás rompe com a tradição platônica e perpassa seu itinerário filosófico influenciado pelo pensamento aristotélico. Logo, para ele não há no homem outra forma além da intelectiva.

          A estrutura do processo do conhecimento em Tomás de Aquino pode ser dividida nas seguintes etapas: abordando os sentidos externos, em seguida dos sentidos internos, ambos provenientes da sensação; a seguir, apresenta-se o conhecimento intelectivo, ao qual se insere o intelecto agente e o intelecto possível (COSTA, 2011). Embora Tomás, em contraposição à Agostinho, não tenha como ponto de partida o mundo sensível, as realidades apreendidas pelos sentidos externos, corroboram a abstractio que tem sua origem propriamente na alma.

          Isso se deve ao fato de que para Tomás de Aquino só é possível abstrair realidades que sejam universais, e na perspectiva do doutor angélico, as realidades universais possíveis são inteligíveis, enquanto as matérias estão limitadas a uma singularidade. Logo, são extraídas dos sentidos exteriores somente as informações com as quais o sujeito realiza a apreensão do conhecimento.

         Na concepção de Tomás, existe no homem aquilo que pode ser chamado de potências intelectivas, intrinsecamente relacionadas à realidade inteligível, da anima. Na questão 78, no artigo 3, ele aborda a questão dos cinco sentidos e afirma que as potências não existem para os sentidos, mas os sentidos para as potências. Desse modo, a natureza coloca os sentidos como meios de correspondência à diversidade das potências. Portanto, não compete aos sentidos conhecer as realidades sensíveis, mas ao intelecto. Tomás acrescentará que os sentidos internos são raiz e princípio comum dos sentidos externos.

         Também convém destacar, a partir dessa perspectiva do campo sensível, o fato de que Tomás de Aquino defende que os objetos são inteligíveis em si mesmos, sobre isso convém citar o seguinte comentário:

Assim, do ponto de vista do sujeito do conhecimento as substâncias imateriais são naturalmente e por si mesmas capazes de intelecção, tanto quanto são inteligíveis em si mesmas a título de objeto. Trata-se aqui evidentemente da inteligibilidade em si e não em relação a nós. E desse modo, Deus é a mais inteligível das substâncias, seguido dos anjos, das almas humanas, das almas dos animais e de todas as outras formas naturais, até os quatro elementos simples, base de todos os corpos (CRUZ, 2006, p. 2).

          Diante disso, caso haja dificuldade e ineficácia na apreensão, isso se deve à debilidade ou insuficiência do sujeito e não na falta de inteligibilidade do objeto, ou na falta de comunicação adequada dos sentidos.

          Na perspectiva de Santo Tomás, o ser e o ente são o ponto de partida. O ente, por sua vez, corresponde à manifestação do ser. De determinado ser pode-se chegar ao conhecimento de outros seres, consequentemente, possuirão em si o ente e a essência. No que se refere ao primeiro, deve-se atentar ao fato de que está ligado as dez categorias de Aristóteles, ao passo que a segunda estará em um âmbito inteiramente ontológico e metafísico.

          Ao pensar Deus como ser absoluto e perfeitíssimo, entende-se que todos os demais seres existem, isto é, “são”, à medida que participam do ser supremo. Nesse contexto, chega-se ao ponto de afirmar que cada coisa é semelhante a Deus na medida em que é perfeita, mesmo que a perfeição de Deus e da criatura sejam diferentes entre si.

          No que se refere a questão da alma, o doutor angélico defende contrariando certas concepções de seu tempo, a união substancial da alma intelectiva e do corpo, ou ainda, de qualquer forma substancial e sua matéria:

E a razão disso está em que, como a matéria está em potência para todos os atos em certa ordem, é preciso que aquilo que é o primeiro absolutamente entre os atos seja também o primeiro na matéria. O primeiro de todos os atos é ser. (AQUINO, 2002, p. 395).

          Por consequência, nada de natureza acidental pode antepor-se aquilo que é essencial. Antes de considerar quaisquer aspectos das realidades existentes, deve-se primeiro observar sua dimensão ontológica, está determinará todos os outros âmbitos.

          Ainda nesse contexto de essência, entidade e ontologia convêm destacar que para Santo Tomás de Aquino, aquilo que o intelecto concebe de mais evidente é o ente. Todos os conceitos possíveis fazem sentido, na medida em que estão ligados ao ente. Para ele, é inconcebível a negação da existência da manifestação do ser, pois ele parte de pressupostos realistas.

          A partir disso, é possível retomar o processo já mencionado acima referente à atividade dos sentidos externos, seguida da reflexão proporcionada pelos sentidos internos, e por fim, o juízo do intelecto possível. A partir disso, o primeiro na ordem dos seres, isto é, Deus, é o último a ser conhecido. Por outro lado, o último na ordem dos seres, o mundo sensível, é o primeiro a ser conhecido. Nesse ponto assemelha-se ao processo Agostiniano, embora em Tomás não haja o aspecto da interioridade.

          Com isso, é possível observar que o pensamento Tomista quer atingir o ser, para isso ele parte da experiência, do fenômeno e do próprio ser em si. Ele não partilha das concepções platônicas que partem de um mundo ideal. Para ele, as realidades criadas são inteligíveis em si mesmas.

          Diante disso, Tomás de Aquino é contrário a filosofia moderna cartesiana posterior, que faz da dúvida o processo metódico para o conhecimento da verdade. O ponto primordial em Tomás de Aquino é que seu pensamento não inicia com uma interrogação, mas uma afirmação. Ele parte do pressuposto de que o ser e o ente existem contendo em si mesmos inteligibilidade.

 

O CONHECIMENTO PROVÉM DA IMATERIALIDADE

          “Immaterialitatem necessário sequitur intellectualitas”. Com essas palavras o Doutor angélico na Summa Contra os Gentiles demonstra que o objeto adequado de intelecção está contido nas essências abstratas das condições imateriais.

          Da imaterialidade, isto é, daquilo que não está para os sentidos, mas fora/extrínsecos a ele, aí necessariamente encontra-se a intelectualidade. Sendo assim, uma vez que que se distancie da matéria, aproxima-se da intelectualidade. Dito de outro modo, “os degraus de distanciamento da matéria correspondem aos degraus da intelectualidade” (Hugon,1998, p. 157).  Dessa forma, pode-se afirmar que só é inteligível o que é em absoluto imaterial, destarte, não há objeto de conhecimento verdadeiro, que não seja universal, isto é, imaterial.

           Para Tomás o ato de conhecer não modifica o espírito daquele que chega ao conhecimento de um objeto, ao contrário, segundo Tomás, conhecer, é colocar em movimento o espírito. Portanto, longe de modificar o espírito do sujeito conhecedor, conhecer, é assimilar uma forma de um objeto apreendido pelo ato intelectivo de abstração ou de infusão.

          No que tange ao ato de conhecer, esse requer que a assimilação dos objetos e das formas apresentadas, seja por infusio ou por abstractio, una-se ao espírito intelectivo, não de modo corporal e concreto, mas de forma independente das matérias. Portanto, direciona-se àqueles seres que vivem e assimilam os elementos de forma vital, ou seja, o faz por um contato puramente físico, dependendo completamente da matéria, não pode conhecer. “Por isso é que os seres, que os seres que não podem assimilar os outros, senão materialmente e por uma presença, são incapazes de conhecimento” (HUGON, 1998, p.158).

          O homem traz intrínseco a sua natureza, uma faculdade independente de qualquer órgão e, cujo ser, jamais se comunica com a matéria, permanecendo elevada acima dela (HUGON, 1998). Essa faculdade é a imaterialidade que nos permite chegar ao conhecimento. Portanto, somos seres intelectivos. Contudo, estamos, segundo o doutor angélico, no primeiro degrau da intelectualidade, por estarmos no limiar da imaterialidade. Mas esse assunto trataremos posteriormente, bem como a faculdade intelectiva do anjo.

 

DA TEORIA DO CONHECIMENTO EM SÃO TOMÁS DE AQUINO: O HOMEM E OS ANJOS, DA ABSTRAÇÃO À INFUSÃO

          A teoria do conhecimento em Santo Tomás, é análoga à teoria aristotélica da abstração, seguindo, pois, a construção do conhecimento especificado na Metafísica de Aristóteles. De acordo com Vieira (2006, p.1):

          Segundo Tomás, o conhecimento se constitui, com efeito, no processo abstrativo em que o intelecto agente fornece ao intelecto possível a espécie inteligível, de caráter geral ou universal, obtida a partir da espécie sensível produzida pelos sentidos e retida na imaginação.

         Assim, o intelecto, não tem por artifício a espécie sensível, ou seja, àquilo que é imanente, mesmo essa lhe sendo favorável, mas logra, separar-se das condições materiais e sensíveis, ou seja, o singular, abstraindo, portanto, a essência universal que é propriamente o inteligível, logo o imaterial.

         Sabe-se, pois, que o objeto de intelecção é o ser de modo geral, ou seja, tanto para o homem, quanto para os anjos, ambos têm o ser, como objeto de intelecção, contudo, de forma diversificada. O anjo por um processo influxo, conhece. O homem por sua vez, como se sabe, por abstração, chega ao conhecimento. Partindo desse pressuposto, poderia então o anjo, ter por potência intelectiva a própria essência, visto que como dito acima, a imaterialidade pressupõe a inteligibilidade?

          Ora o anjo embora sendo criatura, é dotado de imaterialidade. Assim sendo, não é ele todo intelecto? Não seria seu existir seu conhecer? Assim se nos presenta. Ora segue-se no livro Da Alma que “a intelecção é certo viver”.

         Do ponto de vista do conhecimento em Santo Tomás, as substancias imateriais são naturalmente e por si mesmas capazes de intelecção, tanto quanto são inteligíveis em si mesmas a título de objeto. Tratando, portanto, da inteligibilidade em si e por si.

          Segue-se a isso que, Deus é a mais inteligível das substancias, criadora e ordenadora de tudo quanto existe, seguido dos anjos, também criado por Deus, portanto, efeito causal, das almas humanas, bem como a dos animais e as outras formas existentes, criaturas de um único criador.

          De fato, toda substância capaz de inteligibilidade é por natureza imaterial. Não obstante, mesmo o anjo sendo criatura é imaterial e, mesmo a imaterialidade, sendo pressuposto intrínseco ao conhecimento ou ao ato de conhecer/inteligir, sua intelectualidade não está ligada à sua existência, tão pouco ao fato de existir. Como dirá o filósofo: “o ser da criatura está determinado para um só objeto genérico ou específico. Só o ser de Deus é absolutamente infinito”. Assim, é evidente que também o anjo está determinado para um só objeto genérico e específico. Portanto, tornar singular esse movimento de intelecção e existência no anjo, seria colocá-lo em um plano divino, pertencente unicamente à Deus. Destarte, só o ser divino é sua intelecção, portanto, Deus.

Deus que está no ápice da intelectualidade, o ato puro e sem limites, tem por objeto próprio o ato por si mesmo, a saber, a sua essência infinita; eis estas profundezas e estes abismos que o espírito de Deus sonda eternamente. Ele se contempla a si mesmo e em si todo o resto (HUGON, 1998, p. 160).

          Deste modo, mesmo o anjo em sua forma existencial, predicado ao que deriva o ato de conhecer, não pode concluir que nele sejam o mesmo o existir e a intelecção.

         Com respeito à alma humana, a exigência é a mesma, se a alma não subsiste no mundo físico sem o corpo e se possui operações que dependem dele, como a sensibilidade e, o que segue, é uma operação completamente extrínseca ao corpo, a alma está unida ao corpo, mas apenas enquanto forma, enquanto atualização da matéria passiva (VIEIRA, 2006).

          Tendo, pois, demonstrado que o anjo sendo imaterial, predicado do conhecimento, não conhece por si mesmo e, portanto, seu conhecimento, é derivado de uma causa primeira ou melhor, seu conhecimento se dá por uma causa responsável por todos os efeitos, Ato Puro como irá dizer Tomás, compete-nos demonstrar o ato que leva a alma humana ao conhecimento.

        Como já explicitado, a inelegibilidade é proveniente da imaterialidade. Portanto, o ato intelectivo implica a mais absoluta imaterialidade. A alma humana, mesmo sendo ela imaterial, está contida em um todo, que é o corpo material. E como então a alma intelige?

         Foi demonstrado que o anjo por um processo de fruição chega ao conhecimento, o homem por sua vez, por um processo de abstração pode chegar ou melhor, chega ao conhecimento e, não divergindo do processo que leva ao conhecimento, a imaterialidade, também a abstração repousa nesse mesmo dilema, bem como todo ato de conhecer em Tomás, a não ser, o ser divino que diferentemente do anjo, é o mesmo, seu existir imaterial e, sua intelecção.

         A espécie inteligível, a essência ou quidditas só nos é compreensível porque se determina pela ausência de matéria. Como irá postular Vieira (2006, p. 3):

Os sentidos produzem uma representação ou similitude imaterial e individual da realidade material, enquanto o entendimento elabora, a partir da mesma, uma representação ou similitude imaterial e universal que significa a essência comum às realidades materiais de mesma espécie.

         O Autor instiga uma pergunta que também aqui nos é pertinente. “Será essa a única possibilidade, para nós, de intelecção? Para responder a essa questão, se faz necessário que recorramos ao que já foi apresentado em relação ao anjo e seu processo de conhecimento.

          No que toca ao anjo é entendido que não por si, mas por infusão infusio ele conhece e intelige. Dito de outro modo, Deus ao criar o anjo, no mesmo tempo o ilumina com um influxo, lhe transmitindo as representações e as semelhanças das ideias divinas. Sendo assim, é possível de dizer que o anjo não abstrai, porque ele já possui, desde sua criação, todo conhecimento que lhe apetece.

          No que tange à alma do homem, portanto, seu intelecto, ao contrário do anjo, ao ser criado, não lhe é incutido às similitudes das ideias divinas, o homem, portanto, é uma folha de papel em branco a ser preenchida ao longo de sua vida por um processo de abstração. Deste modo, diferentemente do anjo que já lhe foi infuso por Deus todo o conhecimento de que é capaz, o homem só possui esse conhecimento por meio da abstração. “A infusio do anjo corresponde à abstractio do homem”.

          Contudo, mesmo por esse processo de abstração, o homem não chega ao todo ao conhecimento, assim sendo, esse quando vem a morrer, a alma leva consigo todo o conhecimento que obteve pela abstração, ou seja, as espécies universais inteligidas em vida e, assim como os anjos, por um influxo de luz divina recebe as similitudes/representações das ideias de Deus. Portanto, à pergunta que anteriormente foi levantada, a resposta é, sim, há outra possibilidade de intelecção à alma do homem.

          Porém, assim como para os anjos a infusio, é seu modo natural de conhecer e, de forma plena chega ao conhecimento das realidades, a alma tem por natural o conhecimento por meio da abstractio e, por ela seu conhecimento é perfeito. Logo, se ela adquire, pela infusio, a inteligibilidade, ou seja, por um processo que não lhe é natural, isso acontece de modo confuso, consistindo, portanto, de um conhecimento menos perfeito que a abstractio.

          Todavia, há o que podemos chamar de terceiro tipo de conhecimento, esse por sua vez privado às almas eleitas, ou seja, àqueles que pela justa e fiel caminhada nesta vida, alcançaram à vida em plenitude e, portanto, convivem próximos de Deus, de tal modo que o veem tal como Ele o é. Esse é o conhecimento dos santos, não obstante, pelo fato dessa graça estender-se ao aperfeiçoamento ontológico da natureza da alma, ela alcança o conhecimento equiparável aos do anjo, consequentemente, ela é elevada ao convívio angélico, de tal modo, que se torna conhecido todos os desígnios de Deus.

          Por conseguinte, isso não capacita a alma unida à Deus de interferir na realidade dos vivos, nem mesmo seus sofrimentos (dos vivos), os entristece (os santos), porquanto ao entrar em contato com as similitudes e representações das ideias divinas, compreendem de imediato seus desígnios.

         Tendo, pois, demonstrado as vias de acesso ao que compete o ato de intelecção da alma humana e, o espírito angélico, podemos dizer que:

O anjo substancia imaterial, não possui relação corpórea. Seu objeto de intelecção, portanto, provém do mais alto nível de imaterialidade e intelectualidade, que até mesmo para o anjo criatura imaterial, permanece transcendente. “O abjeto proporcionado à sua inteligência deve ter a substancia separada e as ideias não devem partir deste nosso mundo, descerem do alto, infundidas por Deus no momento da criação” (HUNGON, 1998, p. 161).

           A saber, o homem possui uma alma perfeitamente espiritual, portanto, imaterial, contudo, contida em um corpo, material. Seu objeto de conhecimento será, por conseguinte, a essência das coisas materiais, que por abstractio apreenderá as ideias nelas cotidas

 

 

REFERÊNCIAS

 

AQUINO, Tomás de. O Ente e a Essência. (Coleção os Pensadores – Vida e Obra) Bauru: Nova Cultura, 1996. 288 p.

 

AQUINO, Tomás de. Suma Teológica II. São Paulo: Loyola, 2002, 903 p.

 

AQUINO, Tomás de. Suma Teológica VIII. São Paulo: Loyola, 2002, 830 p.

 

AQUINO, Tomás de. Verdade e Conhecimento. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2011, 390 p.

 

COSTA, Marcos Roberto Nunes. O Processo do Conhecimento Humano em São Tomás de Aquino. Pernambuco, n. 2, p. 215-224, 2011. Disponível em: <file:///C:/Users/Gabriel/Downloads/158-432-1-PB.pdf>. 

 

HUGON, Édouard. Os Princípios da Filosofia de São Tomás de Aquino: As Vinte e Quatro Teses Fundamentais. Porto Alegre: Edipucrs, 1998, 317 p.

 

VIEIRA, Eduardo. A Teoria do Conhecimento em Tomás de Aquino: Da Abstractio à Infusio. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, p.1-5. Disponível em: <http://www.rj.anpuh.org/resources/rj/Anais/2006/conferencias/Eduardo%20Vieira%20da%20Cruz.pdf>. 

 

 

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