TRATADO DA INTERPRETAÇÃO DE ARISTÓTELES


Autor: CAVALINI, Gabriel
Publicado em: 20/12/2021

          O livro Órganon, um conjunto de tratados na íntegra escrito por Aristóteles no século IV a. C., no qual está contido o tratado Da Interpretação, é um importante monumental onde se estabelece as bases da lógica formal, sendo considerada uma das mais admiráveis e complexas obras deixadas pelo filósofo.

          Aristóteles nasceu em 384/383 a. C. em Estagira, na fronteira macedônica. O pai de Aristóteles chamado Nicômaco, era um audacioso médico, tendo servido junto com sua família à casa do rei Amintas II, pai de Filipe. A vida de Aristóteles até certo ponto, estava marcada por um duplo atrelamento: à cultura helênica e à peripécia política da Macedônia.

        Aristóteles com aproximadamente dezoito anos, isto é, em 366/365 a. C., ingressou na Academia platônica, a qual frequentou durante vinte anos, ou seja, enquanto Platão viveu. Foi justamente na Academia platônica que Aristóteles entrou em contato com afamados cientistas e pensadores, que resultaram na maturação e concretização de sua idoneidade filosófica. Aristóteles de início assimilou os princípios platônicos e, ao mesmo tempo, submeteu-os a prementes críticas na tentativa de encaminhá-los para novas direções. No entanto, com a morte de Platão, Aristóteles não se sentiu em condições de continuar na Academia, sobretudo pela tomada de posse da escola por Eupêusipo, que guiava uma corrente muito remota das que Aristóteles havia traçado. Desse modo, foi embora de Atenas seguindo viagem para Ásia Menor.

          Com isso, em 343/342 a. C., Aristóteles é convidado por Felipe da Macedônia à educação de seu filho Alexandre, onde permaneceu na corte macedônica até que este ascendesse ao trono. Finalmente, por volta do ano de 335/334 a. C., Aristóteles retorna para Atenas e desenvolve uma ampla produção filosófica e científica. Já em 323 a. C., com a morte de Alexandre e a forte reação antimacedônica propiciada por sua morte, Aristóteles foi indiciado de ter sido mestre do grande soberano, retirando-se para Cálcis para fugir de seus opositores, onde morreu em 322 a. C. depois de poucos meses de exílio.

          Dentre a abundância de escritos deixados por Aristóteles, sua composição pode ser dividida em duas formas: as obras exotéricas, destinadas à publicação, isto é, ao público geral; e as obras esotéricas (acroamáticas), composta para um grupo de discípulos, ou seja, para o público interno da escola. Dentro dessa composição esotérica temos os tratados de modo geral, em especial o conjunto de tratados Corpus aristotelicum, que incluem os tratados de lógicas do Órganon, já que para Aristóteles a lógica não seria parte integrante da ciência e da filosofia, mas exclusivamente um instrumento que elas utilizam em sua construção. O Órganon inclui: as Categorias; Da Interpretação, foco de estudo desse trabalho; os Analíticos Anteriores; os Analíticos Posteriores; os Tópicos; e as Refutações Sofisticas.

          O tratado Da Interpretação de Aristóteles, analisa de um ponto de vista lógico os elementos atômicos do raciocínio, como também, proporciona boas apreciações semântico-gramaticais. Esse tratado tem como assunto fundamental, a linguagem na sua relação com o pensamento, como tradutora ou intérprete deste.

          Aristóteles inicia o tratado procurando definir os conceitos de nome e verbo para chegar à explicação de negação, afirmação, sentença e proposição. Ao fazer uma análise da linguagem percebe-se que alguns de nossos pensamentos são desacompanhados da verdade ou da falsidade, quando não há combinação e nem divisão para afirmar ou negar.

       Nos dois próximos capítulos, o autor define respectivamente o nome, como um som que possuí significado estabelecido somente pela convenção, isto é, nenhuma parte dele tem qualquer significado se considerado separadamente do todo. E também o verbo, que além de transmitir um significado particular, também possui uma referência temporal. É importante salientar também que o verbo é uma indicação de alguma coisa predicada de alguma coisa, ou seja, de alguma coisa predicada de um sujeito ou neste encontrada presente. No entanto, em muitos casos não há propriamente o verbo, mas sim, verbos indefinidos ou os tempos verbais, do qual este último não indica o presente como o verbo, mas sim, todos os tempos exceto o presente.

           Ao analisar o que é sentença o filósofo afirma ser uma fala dotada de significação, mas não expressa uma afirmação ou uma negação. Nem mesmo todas as sentenças podem ser classificadas como proposição, pois chamamos de proposições somente quando a verdade e a falsidade estão ali encerradas.

          Dado o exposto, o autor se dedica a estudar a diferença entre proposições simples e compostas, a diferença entre afirmação e negação, e a quantificação e oposição das proposições. As proposições apresentadas por Aristóteles, são aquelas que encerram verdade e falsidade em si mesmas, como também, requerem a presença de um verbo ou flexão verbal. As proposições simples são aquelas que indicam um fato singular ou que são singulares em virtude de uma conjunção, isto é, constitui como um enunciado falado que afirma ou nega a presença de alguma coisa num sujeito no tempo passado, presente ou futuro. Já as proposições compostas são as que indicam não unidade, mas multiplicidade, ou que apresentam suas partes sem conjunção. Desse modo, um tipo de proposição é simples quando afirma ou nega uma coisa de um sujeito, enquanto o outro é composto por sem composto de proposições simples.

           Já no capítulo X, o estagirita continua a fazer referências às proposições, considerando que o sujeito é um nome ou algo inominado e necessário, devendo ser uno em sua significação. Quanto a estrutura das afirmações e negações, consistem de um nome e de um verbo, podendo ser ditos ou indefinidos. Quando utilizados alguns termos (é, era, será, se torna, entre outros) que além de seu sentido particular fazem uma referência de tempo, não há afirmação nem negação, a não ser que ocorra a utilização do termo ‘é’ (exemplo) sendo utilizado como um terceiro termo, propiciando a formação de dois tipos distintos possíveis de afirmações e negações. Com relação a utilização dos sujeitos em extensão universal, nem sempre pode ser considerado universal por apresentar um todo, mas pode considerar que o sujeito é assumido em toda sua extensão. Ao realizar uma transposição do sujeito e do predicado, não ocorre nenhuma alteração na sentença, ou seja, no sentido das afirmações e negações.

            Os predicados como partes influentes na constituição de uma proposição afirmativa ou negativa, são o tema/assunto abordado no capítulo XI.  Os predicados nas mais diferentes combinações, quando são separados, podem se fundir em um só predicado, ou não. Não é possível ocorrer essa fusão em um só predicado quando são relativamente acidentais ao sujeito, ou até mesmo quando um predicado é acidental em relação ao outro. O fato de predicados estarem contidos um no outro é outra situação em não favorece a formação de unidade entre os predicados.

            No capítulo XII, Aristóteles busca examinar dentro das proposições aquilo que é o possível e o não possível, o que é contingente e o não contingente, do impossível e do necessário, pois enquanto questões contraditórias, precisam ser examinadas em suas relações entre afirmações e negações. Considera a partir desse exame que deve-se tratar “ser e não ser” como sujeitos, de tal forma que acrescentando um ao outro produza-se afirmações ou negações dos termos. No capítulo XIII se dá a apresentação lógica de certas consequências derivadas das afirmações e negações, assim como faz alusão as proposições que predicam necessidade, sendo um exemplo as proposições contrárias que serão consequências de proposições contraditórias. Continua nesse mesmo capítulo por afirmar que nem toda potência admite opostos, pois corresponde a mesma ideia do potencial; já algumas vezes há ambiguidade do termo, sendo que o possível acaba por ser ambíguo; e também há coisas que não se convertem em ato e permanecem em estado de potência.

            Por fim, Aristóteles em seu último capítulo faz analogias sobre o juízo em suas relações hipotéticas dos sons orais acompanharem o mesmo que ocorre no intelecto. Considera que as afirmações e negações são símbolos do próprio juízo que se encontram na alma e, quando verdadeiros, assim como proposições verdadeiras, jamais podem ser contrárias entre si.

           A partir dessa exposição do conteúdo abordado pelo tratado, podemos fazer uma análise do mesmo destacando seus principais aspectos, bem como salientar a importância e a relevância desse tratado ao longo da história. Como se percebe a partir da síntese do conteúdo realizado anteriormente, as proposições são o foco de estudo desse tratado, estudando de um ponto de vista lógico suas estruturas não mais como premissas, mas como os frutos próprios de nossos juízos, isto é, como enunciações complexas. 

          Com isso, o filósofo se dedicou a estudar as proposições em seus diversos significados e estruturas, como a diferença entre as proposições simples e compostas; a diferenciação entre afirmação e negação; a quantificação e oposição das proposições, ressaltando em seguida o problema da verdade nas proposições de fatos futuros, conhecido pelo célebre exemplo da batalha natal; as relações de consecução entre proposições afirmativas de predicado negativo e negativas de predicado positivo; a oposição e consecução entre as proposições modais; e, finalmente, um estudo sobre a relação de contrariedade, em que se distingue entre a contrariedade na proposição e a proposição de contrários como foi apresentado.

          Desse modo, o tratado Da Interpretação de Aristóteles pode ser considerado o primeiro esboço histórico de uma teoria gramatical sistemática. Trata-se de uma questão de ordem gramatical, que leva em consideração a semântica da língua e faz com que as orações tenham um sentido alterado e até mesmo degradado. Além disso, baseia-se numa tese de amplo alcance, pois realiza-se uma extraordinária simplificação no universo da linguagem fornecendo estruturas básicas para a formação de línguas futuras.

            O termo Órganon, nome dado ao conjunto de tratados de lógica desenvolvido por Aristóteles no qual está contido o Da Interpretação como já apresentado, significa “instrumento”, isto é, define bem o conceito e o fim da lógica aristotélica que, segundo o filósofo, nada mais é do que a ciência que estuda as leis gerais do pensamento, onde pretende fornecer os instrumentos mentais necessários para enfrentar todo e qualquer tipo de investigação.

         Desse modo, para se atingir a certeza científica e construir um conjunto de conhecimentos seguros, torna-se necessário segundo o filósofo, possuir normas de pensamento que permitam demonstrações corretas e, portanto, irretorquíveis. Nessa perspectiva, o conjunto de tratados do Órganon ensina como a inteligência deve operar para evitar os erros e atingir a verdade com mais rigor possível, constituindo-se assim, uma propedêutica necessária para entrar no estudo sistemático do raciocínio em geral, como também, da metodologia do conhecimento científico.

         No trajeto histórico de formação do pensamento lógico, contata-se Aristóteles como o primeiro filósofo a dar um impulso e um aprimoramento de grande valor ao estudo da lógica. Essa ciência, permanecerá durante toda a história presente nas discussões filosóficas, recebendo uma diversidade de exposições e sistematizações de estudiosos futuros.

         Logo, o conjunto de tratados de lógica desenvolvidos por Aristóteles, não terá grande relevância apenas para a sociedade de sua época, mas permanecerá durante toda a história e até os dias de hoje. É de se notar, no entanto, que seu pensamento foi discutido por muitos filósofos e estudiosos ao longo dos séculos, por muitos até criticado e refutado, principalmente na época moderna, mas permanecerá firme como o pilar das posteriores teorias.

           Assim sendo, percebe-se ainda hoje os princípios da lógica aristotélica adentrados na sociedade, pois, a partir dela, é possível discutir problemas filosóficos de modo que a lógica se torna um instrumento de sustentabilidade do pensamento filosófico, clarificando-o o ajudando-o a evitar erros de raciocínio. Além disso, organiza argumentos de modo a construi-los da melhor maneira possível, que favoreça por exemplo, quando se está defendendo uma causa. Um exemplo claro da permanência dos princípios da lógica aristotélica hoje na sociedade é o sistema jurídico, que se utiliza de princípios lógicos como o da não contradição por exemplo, para questões de decisão judicial, nos testemunhos, nos pleitos defendido pelo advogado entre outros.

 

REFERÊNCIAS

ARISTÓRELES. Órganon. São Paulo: Ediplo, 2019

 




Solicite seu orçamento aqui!