ESTUDO A RESPEITO DOS SUBTÍTULOS ‘VIVER É SOFRER” E “CONTINUIDADE DA DOR” PRESENTES NO CAPÍTULO IV DA OBRA O MUNDO COMO VONTADE E REPRESENTAÇÃO DE SCHOPENHAUER


Autor: OLIVEIRA, Ricardo Orlando
Publicado em: 20/12/2021

          O pensamento de Schopenhauer aborda abundantemente a temática do sofrimento. Sendo ele influenciado pela cultura oriental, sobretudo as vertentes do hinduísmo e do budismo, elaborou uma maneira de superação do sofrimento baseada num itinerário ascético de eliminação do desejo. Segundo o filósofo, o mundo pode ser compreendido como vontade e representação, isto é, conforme Kant já havia prenunciado, não é possível conhecer as realidades propriamente, mas apenas subjetivamente. A vontade impulsiona o indivíduo nessa tarefa do conhecimento. No entanto, um aspecto interessante do pensamento schopenhaueriano é que ele salienta a existência de uma insatisfação constante que parte do desejo e esse ao ser logrado dá lugar ao tédio. A partir daí, situa-se um ser humano que está sempre sofrendo, seja por desejar ou por entediar-se com que foi conquistado. A aniquilação do sofrimento passa pela eliminação do desejo.

           Segundo a terminologia utilizada por Schopenhauer, a grande questão consiste em discutir o "querer" e "não-querer" viver. A partir disso, ele postula a vontade como essência íntima da vida universal. A vontade é destituída de um alvo específico, ela é simplesmente aspiração perpétua que nenhum objetivo alcançado consegue findar. É interessante notarmos o quanto essa perspectiva foi também partilhada por vários pensadores. Existe no homem uma insatisfação constante que ao mesmo tempo corresponde ao seu princípio-motor de tudo buscar, é seu desfecho frustrante de nada encontrar, ou ainda, encontrando e em seguida relativizar o bem conquistado. O filósofo chama atenção para a própria natureza que em certos casos manifesta essa oscilação. O exemplo que ele utiliza é a água. Enquanto está no seu estado sólido, basta o calor para retornar ao estado líquido. Do mesmo modo, a rigidez do frio conduz o líquido ao estado sólido. Trata-se de uma luta de vida e morte, conforme o filósofo, que nesse aspecto consideramos bastante similar ao pensamento do pré-socrático Anaximandro que postulava o ilimitado como princípio que dinamizava o mundo pelo combate dos contrários. Ou ainda, embora seja um grande crítico de Hegel, a dialética postulado por esse contemporâneo de Schopenhauer lembra um pouco essa noção de luta de opostos.

         No homem é onde a vontade aparece de maneira mais clara e a luz da consciência mais eficaz. Existe uma racionalidade que nos distingue dos demais animais, conforme já prenunciava Aristóteles. No entanto, notamos que Schopenhauer evita usar o termo racionalidade, dando preferência à consciência. Isso talvez se remete à uma das críticas que o presente pensador fez ao sistema hegeliano, observando nele uma realidade racional excessivamente. A partir dessa compreensão de vontade, o pensamento schopenhaueriano postula que se essa busca da vontade encontra algum obstáculo há aí o sofrimento. O contrário disso, quando a vontade alcança seu escopo é caracterizado por satisfação ou bem-estar. Mas a própria filosofia de Schopenhauer e também a empiria dos fatos vivenciados ao decorrer de cada existência humana denunciam o quanto esse bem-estar e essa satisfação são efêmeras e inconstantes. Diante disso, a vontade perpetua-se alterando apenas seu objeto de busca.

          Um ponto que destaca Schopenhauer é que cada aspiração é proveniente de uma necessidade. Trata-se de uma atitude de observar o próprio estado e ficar descontente, ambicionando ter outra coisa. A partir disso aí já é possível observar um sofrimento, que perdura até a satisfação ser saciada. O que se verifica em seguida é que tal satisfação é pouco durável e não passa do ponto de partida para uma nova aspiração. Ao destacar as peculiaridades do homem, Schopenhauer também salienta que na mesma medida que a vontade se aperfeiçoa o sofrimento se torna mais vívido. Ele faz uso do exemplo das plantas e chama atenção para o fato de que nelas não há nenhuma dor, os animais inferiores têm um grau mínimo de sofrimento. Ao passo que para o ser humano o sofrimento sempre estará presente. Ele cita até mesmo trecho de Eclesiastes que declara que quem acresce em ciência, também acresce em dor.

           A vontade aparece como indivíduo situado nas dimensões temporais e espaciais da existência. Existe aí um contraste entre a finitude humana e a infinitude do tempo e do espaço. Esse trecho da obra de Schopenhauer nos leva a pensar o quanto essas categorias que norteiam a física podem não passar de criações humanas, tentativas desesperadas do homem em querer delimitar a realidade ilimitada ao seu redor. São relativos o "quando" e o "onde" da nossa existência. A existência só pode ser afirmada com certeza no presente, nada que foge a isso pode ser declarado. O que resta ao ser humano, nessa perspectiva, é uma contínua reversão ao passado, o que caracteriza uma morte contínua. Nossa vida corpórea é uma morte retardada a cada dia, até que um dia seja morte de fato. Interessante o quanto essa compreensão, embora possa parecer pessimista é carregada de verdade. Um dia que se vive a mais de vida, também é um dia a menos de vida. Lutamos a todo instante contra a morte, buscamos a todo custo adiá-la.

          Querer e aspirar consistem na essência do ser humano. Schopenhauer estabelece uma comparação bastante interessante ao afirmar que a vida humana oscila entre a dor e o fastio. Além disso, ele diz uma frase célebre quando infere acerca do ser humano ter colocado todas as dores no inferno, assim nada encontrou para pôr no paraíso. Isso nos remete ao fato de que não somos habituados, porque não conhecemos, uma realidade que satisfaça plenamente e que passe a ser fonte inextinguível de alegria e bem estar. Todas as realidades as quais entramos em contato são necessariamente dotadas de efemeridade. O homem está abandonado a si mesmo e sua existência nada mais é que uma luta pela vida com a certeza de uma derrota final. Os homens desejam viver e quando conseguem conservar sua vida não sabem o que fazer dela. O tédio não pode ser diminuído, segundo Schopenhauer, ele pode levar o homem ao desespero.

          Diante disso, a filosofia de Schopenhauer mostra-se à nós ao mesmo tempo surpreendente e ao mesmo tempo sombria. Ele não deixa de postular uma saída para os problemas que cria, contudo, é uma saída difícil para problemas tão inerentes à natureza humana. Não há como separar-se do sofrimento, como não há separação da nossa essência e da nossa vontade. A sublimação dos desejos parece uma conquista que seletivamente poucos são os eleitos que conseguem lograr. No entanto, a filosofia schopenhauriana nos conduz a precariedade existencial que todos nós embora saibamos e experimentemos, insistimos em ignorar. A obra deste filósofo é capaz de mudar a vida de quem a lê, uma vez que remete a consciência de que na maioria das vezes somos iludidos pelo desejo que nos convence de que precisamos de tal objeto a ser conquistado. Ledo engano, nos dirá Schopenhauer, já que a vontade é um cego robusto a carregar um aleijado. Por ser cego, ele conduz, mas não sabe onde. Não há, portanto, escopo, nem objetivo e nem perspectiva teleológica.

 

 

REFERÊNCIAS

SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e representação. Livro IV. Trad. Heraldo Barbuy. 104 p. Disponível em: <http://www.egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/anexos/24881-24883-1-PB.pdf>. 




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