RELAÇÃO ENTRE ÉTICA, EDUCAÇÃO E POLÍTICA EM PLATÃO (A REPÚBLICA)


Autor: OLIVEIRA, Ricardo Orlando
Publicado em: 28/12/2021

INTRODUÇÃO

          O presente estudo visa discorrer sobre a relação existente entre política, educação e ética no pensamento platônico, tendo como base sua obra principal intitulada A República, que contém seus principais pensamentos a respeito do tema. Em Platão, política, educação e ética estão fortemente entrelaçadas, visto que para o filósofo, tais temas são as colunas fundamentais que formam o homem grego, pois levam a contemplação da Ideia do Bem.

          Assim, ao adentrar na Cidade Perfeita proposta por Platão em sua obra, tendo em vista que os temas que irá ser discutido nesse trabalho surgem a partir dessa Ideia, percebe-se a relação existente entre eles. Isto é, para uma boa política, onde cada um faz aquilo que lhe compete e a Cidade Perfeita se concretiza, é necessária uma educação de qualidade, pois a educação que conduzirá a formação de bons cidadãos, e consequentemente de uma boa política. O mesmo se dirá para a ética. Quando cada cidadão busca praticar as leis e os costumes da Cidade, justificando suas práticas e tornando-as virtuosas para a manutenção da própria pólis, consequentemente, o convívio dentro dela passa a ser cada vez mais harmônico, possibilitando o cultivo do bem comum.

 

RELAÇÃO ENTRE ÉTICA, EDUCAÇÃO E POLÍTICA EM PLATÃO

 

          A proposta platônica de um Estado ideal manifestado em sua obra A República, reflete tanto uma crítica do filósofo ao contexto histórico político em que o mesmo está inserido, como também, a constituição de um Estado justo. Nessa perspectiva, para a construção desse Estado ideal, é necessário, antes de tudo, que cada homem contemple a Ideia de Bem, isto é, que através de uma boa educação, com formação ética e política, o homem grego seja direcionado para essa contemplação. O Bem na concepção platônica, não está relacionado ao material, mas sim, se refere a tudo aquilo que permite o engrandecimento da alma humana. Essa Ideia de Bem situa-se no mundo inteligível apresentado por Platão. Contudo, nada impede ao homem de contemplar essa ideia no mundo sensível através da prática das virtudes.

          Tendo em vista que, para Platão, a política, a educação e a ética são fundamentais para contemplar a Ideia de Bem, é necessário compreender como ocorre o entrelaçamento dessas três colunas fundamentais para a formação do cidadão grego.

          O Estado para Platão nasce porque cada indivíduo não é “autárquico”, isto é, não se basta por si mesmo, não é totalmente independente. Dessa maneira, cada indivíduo necessita de serviços de vários outros indivíduos. Assim, há a necessidade de homens que providencie os bens materiais; de alguns homens responsáveis pela guarda e defesa da cidade; como também, de alguns homens para governar adequadamente. A cidade, portanto, necessita dessas três classes sociais: os lavradores/artesãos/comerciantes; os guardas/guerreiros; e os governantes/guardiões.

          Assim sendo, a Cidade perfeita nasce basicamente quando predomina a temperança na primeira classe; a fortaleza na segunda; e a sabedoria na terceira. Segundo Platão, a justiça nada mais é do que a harmonia dessas três classes, ou seja, quando cada cidadão de cada classe social faz aquilo que lhe compete, a justiça perfeita se realiza, e o Estado ideal se concretiza.

          A direção e o rumo a se seguir do Estado ideal proposto por Platão ficam a cargo da classe dos governantes. Platão parte do pressuposto que um governante deve ser justo e eticamente correto. Assim, para que o mesmo possa exercer um bom governo, implica antes de tudo ser sábio, isto é, que busque constantemente o conhecimento e a prática das virtudes, como também, “a aversão à mentira e a recusa em admitir voluntariamente a falsidade, seja como for, mas antes odiá-la e pregar a verdade” (PLATÃO, 2001, p. 267).

          Para Platão, tal posto só pode ser ocupado pelo filósofo, pois o filósofo é aquele que ama a sabedoria e possui uma sede de conhecimento inesgotável. Assim:

tal indivíduo será moderado, e de modo algum ambicioso; porquanto os motivos pelos quais se afadiga para obter riqueza, com o seu acompanhamento de desperdícios, a ninguém convêm menos do que a ele. [...] que não tenha, sem que tu o saibas, qualquer baixeza (PLATÃO, 2001, p. 268).

          O filósofo é capaz de fazer a mediação entre os dois mundos propostos por Platão, isto é, o sensível e o inteligível. Assim, se o político se tornar filósofo será possível construir uma cidade perfeita, onde o Estado é fundado sobre o valor supremo da justiça e do bem.

          Contudo, para se ter uma sociedade politicamente e eticamente justa, é necessário, antes de tudo, uma educação adequada, por isso pode-se considerar a educação como propedêutica do Estado. Essa educação proposta por Platão, formará o homem para a cidadania e, de acordo com suas aptidões, exercerá virtuosamente sua função na cidade. Ou seja, é pela educação que se forma o sujeito para uma função determinada, aquela para o qual ele será apto.

         Nessa perspectiva, a educação proposta por Platão assume uma característica gradual, que de estágios menores para estágios mais elevados, culmine nas pesquisas filosóficas, no pensamento puro, onde só chegariam aqueles particularmente talentosos. Isto é, os filósofos, os quais deveriam estar no governo da Cidade.

          Logo, para Platão, a educação é a mais nobre de todas as ciências, por isso faz-se necessário uma longa caminhada educacional. Tal educação é definidora de uma sociedade justa ou injusta, pois, segundo o filósofo, se uma alma dotada for semeada num terreno inconveniente, consequentemente recebendo uma má educação, a mesma se tornará perversa. E é aí que a ética toma papel significante para a regência justa da urbe, tanto por parte daqueles que retêm a sabedoria para governá-la, isto é, os governantes (também chamados de guardiões), quanto da parte de cada indivíduo que tem a tarefa de exercer o seu papel para a ordenação da Cidade.

          Para este bom funcionamento cívico, Platão fala na sua obra A República de uma espécie de senso comum natural, ao invés de falar de um sistema de leis a serem seguidas. Em dado momento, o filósofo chega a considerar tais exigências legislativas desnecessárias para a vivência da urbe, tendo em vista o caráter obrigatório que elas exigem, e não a categoria virtuosa que se requer de um indivíduo em qualquer lugar onde ele resida ou trabalhe. Se por um lado a cidade funcionar – do ponto de vista ético – impulsionada não por inspirações interiores, mas por ações puramente técnicas ou fadadas a um fim pré-determinado, embora possa conquistar com isso algum mérito civilizado, Platão diria que estas práticas não fariam da Cidade um lugar feliz para todos, pois de nada adianta manter um bem apenas ordenado sem dele usufruir.

         Por outro lado, se a Cidade funcionar – também do ponto de vista ético – impulsionada apenas pelas inspirações pessoais e individuais, do mesmo modo não será possível torná-la feliz para todos. Quer dizer com isto, que, embora as ações de cada indivíduo devam provocar a sua realização prática, é demasiado justo que cada um seja honesto e cumpra o seu dever dentro das suas possibilidades, tendo em vista o bem de todos. Assim, segundo Platão, “quando toda a cidade tiver aumentado e for bem administrada, consentir a cada classe que participe da felicidade conforme a sua natureza” (PLATÃO, 2001, p. 164).

          A ética platônica quer acima de tudo conservar as leis e os costumes da Cidade ideal, justificando as suas práticas e tornando-as tradicionais para a manutenção da mesma, por meio da reta administração de cada classe. Ora, à um oleiro não lhe cabe o governo da Cidade. Caso contrário, faltará obra-prima para a manutenção básica da mesma. Ao governante tampouco, pois faltaria a organização. E ao guarda da mesma forma, para não faltar a defesa da Cidade. Neste sentido, fazer da Cidade um lugar justo para todos, exige que cada um consinta em respeitar as leis da urbe, mas não por moralismo, e sim pelas virtudes eticamente aceitas naquela tradição.

         Mais especificamente dentro da educação esta tradição deve ser respeitada. Os padrões morais da cidade são considerados indispensáveis e retos para o bom desenvolvimento dos jovens, seguindo a riqueza das produções artísticas e culturais que a Cidade possui. É convicto que Platão afirma:

uma educação e instrução honestas que se conservam tornam a natureza boa, e, por sua vez, naturezas honestas que tenham recebido uma educação assim tornam-se ainda melhores que os seus antecessores, sob qualquer ponto de vista (PLATÃO, 2001, p. 168).

         Percebe-se, com a afirmação acima, que para um comportamento moralmente aceitável dentro da Cidade, é necessário a observância das leis desde a fase educacional juvenil, tanto para manter a honestidade dos indivíduos, quanto para melhorar futuramente o seu funcionamento. Os costumes musicais, por exemplo, não devem se submeter à gêneros inovadores que comprometam a dignidade moral dos indivíduos. Observa:

quando, portanto, as crianças principiam por brincar honestamente, adquirem, através da música, a boa ordem e, [...], ela acompanha-os para toda a parte, e, com o seu crescimento, endireita qualquer coisa que anteriormente tenha decaído na cidade (PLATÃO, 2001, p. 170).

         Logo, inovações que encaminhem as pessoas para a imoralidade devem ser eticamente contestadas; o mesmo se procedendo na ginástica e nos jogos; como nos demais costumes e padrões morais.

         Esta avaliação ética transcorre todos os ambientes, sobretudo os práticos, como no caso da política. O sujeito que procede de forma moralmente necessária, contribuirá para aquele bom ordenamento coletivo já citado. Sobretudo nesta classe, considera morada obrigatória da sabedoria, o mister deve ser justo e reto. Pois, se um sapateiro não cumprir bem o seu dever, não será a cidade toda afetada, mas apenas uma porção. Também o guarda que não observa o seu preceito, causará dano não tão significativo. Mas se o político não exercer bem o seu papel, donde vem a possiblidade de reflexão filosófica, toda a cidade sofrerá com as tomadas injustas, devido aos interesses individuais e a inobservância da moral.

 

 

REFERÊNCIAS

PLATÃO. A República. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. 9 ed. Lisboa. Calouste Gulbenkian, 2001. 511 p.

SILVA, Sinicley. O bem como finalidade da educação em Platão. Santa Maria-RS, p. 1-8. Disponível em: < http://coral.ufsm.br/gpforma/2senafe/PDF/067e4.pdf >.




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