REVOLUÇÃO INDUSTRIAL: DA MANUFATURA À MAQUINARIA MODERNA


Autor: CAVALINI, Gabriel
Publicado em: 19/01/2022

INTRODUÇÃO

          O objetivo do presente trabalho é discutir o processo de transformação que ocorreu na sociedade com a passagem da manufatura à maquinaria moderna, tendo como referencial teórico principal a análise que Karl Marx desenvolveu no capítulo XIII da obra O Capital: A maquinaria e a indústria moderna. Essas mudanças na forma de produção, possibilitou que o sistema capitalista se consolidasse como modo de produção hegemônico, e teve condições materiais para aumentar a produtividade, o lucro e remover as barreiras que a produção manufatureira impunha à expansão.

          Além disso, visamos compreender, especificamente, quais foram as consequências imediatas que tais mudanças provocaram no trabalhador, uma vez que a essência do capitalismo é a exploração da força de trabalho.

 

DA MANUFATURA À MAQUINARIA MODERNA

          A Revolução Industrial e todas as transformações que produzira no mundo do trabalho e na sociedade, segundo Marx, podem ser compreendidas a partir da passagem da manufatura para a maquinofatura como modo de produção. Quando se fala em manufatura, estamos falando em uma forma evoluída de produção, visto que a intensificação da divisão do trabalho proporcionada por ela, impulsionou, significativamente, o desenvolvimento e circulação de mercadorias. Contudo, a manufatura é limitada, no sentido de que ela depende, exclusivamente, do trabalhador (GOMES; MELO; SOUZA, 2012).

        O fato de a manufatura ser totalmente dependente das habilidades e qualidades de cada trabalhador, dificulta o aumento da produção, pois, à medida que a ferramenta da manufatura é a força do trabalho do indivíduo, e esta pode estar limitada à questões de ordem natural e racional, a expansão do capital sofreria uma verdadeira estagnação. Portanto:

Fica claro que a dependência em relação ao trabalho vivo, enquanto dependência em relação à habilidade do trabalhador manual caracterizava-se um entrave para o império do capital. Era crucial para o modo de produção capitalista se independentizar do trabalho vivo (NETO, 1989, p. 27 apud GOMES; MELO; SOUZA, 2012, p. 71).

         Assim, era necessário superar essas limitações, de modo que, com a implantação de novos métodos, fosse possível uma ampla produção de mercadorias sem depender exclusivamente do trabalhador. A partir dessa necessidade do capital de promover seus interesses, foram criadas novas possibilidades de desenvolvimento, como a implantação de novas técnicas e a construção de novas máquinas. 

          O emprego da maquinaria nas indústrias não tem como objetivo aliviar o trabalho dos operários, mas sim, baratear a mercadoria através do aumento da produção, ou seja, é meio para produzir lucro, mais-valia. Assim, para compreender as transformações ocorridas, é necessário, primeiramente, fixar a diferença que existe entre a máquina e a ferramenta.

         A ferramenta é compreendida como uma máquina simples, enquanto a máquina uma ferramenta complexa. Contudo, essas informações não distinguem no sentido que aqui precisamos. Na verdade, a grande diferença está na força utilizada no funcionamento das mesmas: a ferramenta é movida por força humana, enquanto a máquina por outra força natural (animal, água, vento, vapor). Assim, a máquina, com todas as suas engrenagens, possuindo uma força e movimento próprio, dispensa a força e as operações que eram realizadas pelo trabalhador na manufatura, onde o operário possuía o domínio das ferramentas e dos modos de produção.

          Apesar de o homem ser o primeiro motor nos dois modos de produção, as diferenças no instrumental de trabalho são concretas: na manufatura o trabalhador tinha um número de ferramentas limitado, uma vez que, por conta do próprio corpo, não podia operar vários instrumentos ao mesmo tempo mas, em contrapartida, tinha um contato direto com o instrumento e conhecia todo o processo de produção; já na maquinofatura a máquina substitui o trabalhador, pois, possuindo força motriz diversa da do homem, necessita deste apenas para vigiar as máquinas e corrigir os seus eventuais erros. Neste aspecto, conclui-se que “Depois que os instrumentos se transformaram de ferramentas manuais em ferramentas incorporadas a um aparelho mecânico, a máquina motriz, o motor, adquire uma forma independente, inteiramente livre dos limites da força humana” (MARX, 1987, p. 431).

         Com a maquinofatura especifica-se também os instrumentos de trabalho, ou seja, a matéria-prima passa por diversos processos parciais, em diversas máquinas, até ser transformada em produto. Essa especificação exige, necessariamente, uma divisão de ofícios. Reaparece, então, a cooperação presente na manufatura, contudo, categoricamente diferentes: na manufatura, todas as operações nas ferramentas, mesmo que parciais, são realizadas manualmente pelos operários, ou seja, há um ajustamento de todo o processo em relação ao trabalhador; na produção mecanizada, pelo contrário, “desaparece esse princípio subjetivo da divisão do trabalho” (MARX, 1987, p. 433).

          Nela, a cooperação passa a ser entre máquina-máquina, e todos os processos parciais são resolvidos pela técnica da mecânica. O trabalhador perde, portanto, o domínio físico e intelectual do objeto, da ferramenta e consequentemente do meio de produção, passando a ter apenas um saber específico e especializado. Assim, “o instrumental de trabalho, ao converter-se em maquinaria, exige a substituição da força humana por forças naturais e da rotina empírica pela aplicação consciente da ciência” (MARX, 1987, p. 439).

 

CONSEQUÊNCIAS DA MAQUINOFATURA PARA O TRABALHADOR

        Segundo Marx, todas as transformações ocorridas no que se refere aos instrumentos de trabalho, provocou transformações imediatas no trabalhador, uma vez que o material humano se incorporou no organismo mecânico. Assim, faz-se necessário, como Marx, determo-nos nas principais mudanças ocorridas com o trabalho industrial, além das diversas implicações que tais mudanças causaram.

 

EXPLORAÇÃO DO TRABALHO DE MULHERES E CRIANÇAS

         A primeira consequência que podemos colocar a respeito das mudanças do trabalho industrial, foi a exploração e a escravização de mulheres e crianças. Com o desenvolvimento da maquinaria, dispensa-se a força física humana e, com isso, é possível se apropriar das forças de trabalhos desta categoria, ou seja, o capital não reconhece nem sexo, nem idade. Assim, todos os membros da família, envolvidos pelo trabalho, se colocaram sob o domínio do capital, e os momentos de lazer foram roubados pelo trabalho nas indústrias, provocando uma alteração nos valores e costumes.

         O pagamento não era realizado pelo tempo de trabalho, mas era levado em conta o que era necessário para a manutenção da família. Deste modo, mesmo toda a família trabalhando o salário continuou o mesmo; era o mesmo valor dividido entre os membros da mesma, desvalorizando, assim, o trabalho do operário adulto. O trabalho torna-se mercadoria, ou, mais ainda, a mulher e os filhos também são postos à venda, lembrando a venda de escravos:

“Minha atenção” diz um inspetor de fábrica inglês, “foi despertada por um anúncio, na folha local de uma das mais importantes cidades industriais de meu distrito, que dizia o seguinte: precisa-se de 12 a 20 jovens com a aparência de 13 anos pelo menos, Salário 4 xelins por semana. Dirigir-se a etc” (REDGRAVE apud MARX, 1987, p. 452).

         Com o discurso de “liberdade de trabalho”, crianças são forçadas a trabalhar como adultos mesmo sem condições físicas para tal empreendimento. Por isso, a degradação física das crianças, jovens e mulheres ocorria rapidamente e a mortalidade infantil aumentou consideravelmente. Esse aumento se deu principalmente pelo fato de as mães trabalharem fora de casa. Isso se confirma, uma vez que, nos distritos agrícolas, onde as mulheres raramente iam para as fábricas, a taxa de mortalidade infantil era bem inferior.

        Muitas mulheres, mesmo as casadas, contratadas para trabalharem em regiões distantes de suas casas, se corrompiam por uma costumeira licenciosidade, e frequentemente se prostituíam. Enquanto isso, em casa, os filhos morriam pelo abandono, maus cuidados e uso de narcóticos. Percebe-se, então, que há uma degradação moral das mulheres e crianças, provocada pela exploração do trabalho.

           Paralelo à degradação moral, há uma obliteração intelectual, principalmente dos adolescentes, que transformados em máquinas de produzir mais-valia, perdem a capacidade de desenvolvimento natural que possuem. O Parlamento Inglês, buscando uma solução para o problema, cria uma lei para educação obrigatória das crianças menores de 14 anos. Contudo, por conta das condições precárias e pela má instrução dos professores, não passava de uma educação ilusória, uma vez na maioria das vezes, os professores mal sabiam escrever o próprio nome.

 

PROLONGAMENTO DA JORNADA DE TRABALHO

          Com o advento da maquinaria, a jornada de trabalho logicamente deveria ser reduzida, uma vez que reduz o tempo necessário à produção da mercadoria. Contudo, com a ganância e a cobiça no trabalho alheio, o capital encontrou nele motivos para prolongá-la em benefício próprio.

          A máquina possui um período de vida ativa, e esse período é determinado pela duração diária do trabalho, multiplicada pelo número de dias em que o processo se repete (MARX, 1987). Assim, a mais-valia produzida em uma jornada de trabalho extensa é bem maior do que em uma jornada de trabalho reduzido, além de possuir a vantagem de ser em curto espaço de tempo, apesar de que, nesse regime, o desgaste da máquina ocorre precocemente. Esse desgaste da máquina ocorre de dois modos: um direto e físico (ferrugem, quebra, etc.); e outro indireto e moral (perda do valor de troca, desvalorização), justificando assim, a intensificação da jornada de trabalho.

Prolongada a duração diária do trabalho, amplia-se a escala de produção, permanecendo invariável a parte do capital despendida em maquinaria e construções. Aumenta, então a mais valia, ao mesmo tempo que diminuem os gastos necessários para obtê-la. (MARX,1987, p. 462)

         Assim, a aplicação e utilização da maquinaria, permitiu ao capitalista criar motivos e situações para justificar suas ações, principalmente no que diz respeito ao prolongamento da jornada de trabalho, revolucionando os métodos e a organização do trabalho coletivo, quebrando assim, de uma só vez com as oposições.

 

A INTENSIFICAÇÃO DO TRABALHO

           O prolongamento da jornada de trabalho provocou rapidamente uma reação da sociedade, principalmente dos operários explorados. Os capitalistas, com isso, limitados pelas normas legais, foram obrigados a estabelecerem uma jornada normal, com a redução das horas. Contudo, a partir desta limitação, surge um outro fenômeno, que foi a intensificação do trabalho:

Quando a rebeldia crescente da classe trabalhadora forçou o estado a diminuir coercitivamente o tempo de trabalho, começando por impor às fábricas propriamente ditas um dia normal de trabalho, quando, portanto, se tornou impossível aumentar a produção de mais valia, prolongando o dia de trabalho, lançou-se o capital, com plena consciência e com todas as suas forças, à produção da mais valia relativa, acelerando o desenvolvimento do sistema de máquinas (MARX, 1987, p. 467).

          Com essa intensificação, o operário tinha que produzir em uma jornada menor, o que produzia anteriormente: o “maior tempo” de trabalho fora trocado pela “maior quantidade” e “maior velocidade”. Contudo, surge uma questão que aflige os industriais: como intensificar o trabalho e não ter ações reacionárias do operário? Para isso, eles aplicaram o método da retribuição, e a principal delas foi a redução da jornada que aparentemente pareceu um grande benefício. E de fato foi, mas para os capitalistas, que forçados a aprimorar a maquinaria e o processo de produção, deram um grande salto no desenvolvimento industrial.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

          A partir da análise de Karl Marx acerca da indústria moderna, podemos considerar que o advento da maquinaria sofisticada sobre o modo de produção manufatureiro, possibilitado pelos avanços científicos e tecnológicos a partir do século XVIII, foi o principal responsável pelo estabelecimento do capitalismo nos moldes como conhecemos.

       Esse progresso revolucionou a categoria trabalho, uma vez que a maquinaria alterou diretamente os meios de produção, se adequando aos interesses dos capitalistas em detrimento do operário. Essa questão possibilitou uma série de consequências imediatas, como a apropriação do trabalho de mulheres e crianças, a extensão da jornada de trabalho, a degeneração cognitiva e moral dos indivíduos, e várias outras explorações que alteraram consideravelmente a sociedade e suas instituições.

          Todas essas considerações, levam-nos a refletir até que ponto o progresso científico e tecnológico nas mãos do capital pode beneficiar a humanidade, e quais são as contradições presentes nesses avanços. Podemos concluir, a partir de Marx, que as contradições presentes no modelo capitalista e as suas práticas insustentáveis, caso não sejam superadas, poderão culminar na destruição completa dos recursos fundamentais à vida humana.

 

 

REFERÊNCIAS

 

GOMES, Renan Willian; MELO, Joaquim Pereira; SOUZA, Osmar Martins de. Da manufatura à Maquinaria Moderna: A Substituição Real do Trabalho ao Capital. Revista Labor, Fortaleza-CE, v.1, n.7, p. 65-78, 2012. Disponível em:

<http://www.revistalabor.ufc.br/Artigo/volume7/5_Da_manufatura_a_maquinaria_moderna_a_subsuncao_real_do_trabalhador_ao_capital_-_Osmar_Martins_de_Souza.pdf>.

 

MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. vol. 1. ed. 11. trad. Reginaldo Sant’anna. São Paulo: Editora Bertrand brasil, 1987. 579 p.

 




Solicite seu orçamento aqui!