A FORMAÇÃO DAS LIDERANÇAS CRISTÃS FRENTE AS DIFICULDADES E DESAFIOS DA SOCIEDADE CONTEMPORÊNEA


Autor: CAVALINI, Gabriel
Publicado em: 19/01/2022

INTRODUÇÃO

          O presente estudo tem por objetivo apresentar e discutir ações pastorais que visem a formação das lideranças cristãs, frente as dificuldades e desafios da sociedade contemporânea. Sabe-se que a contemporaneidade, com todas as suas descobertas e mudanças, proporcionou a sociedade um novo modo de vida. Consequentemente, atingiu negativamente diferentes instâncias da realidade, tais como a religiosa, uma vez que, na maioria dos casos, não estavam preparados para dialogar com o diferente e o novo. Diante dessa constatação, faz-se necessário ações pastorais capazes de enfrentar e dialogar com esse dado. Uma delas é a formação das lideranças.

          Para o cumprimento desse objetivo, o trabalho procurará, primeiramente, refletir as consequências que esse novo momento histórico causou nas diferentes dimensões eclesiais. Em seguida, apresentará a visão do Magistério a respeito da formação das lideranças cristãs. E, por fim, propor ações pastorais – a partir do Magistério –, para a formação das lideranças cristãs com o “pano de fundo” das mudanças da contemporaneidade.

 

UM NOVO MUNDO

          Ações pastorais ou, simplesmente, pastoral, é a força evangelizadora da Igreja no mundo, capaz de transmitir aos povos, culturas e realidades sociais o Evangelho de Cristo. Seu objetivo é auxiliar os homens e mulheres a se encontrarem com Deus, possibilitando a construção de uma sociedade justa e fraterna, por meio de ações ministeriais. A formação das lideranças cristãs é uma das principais ações pastorais que uma comunidade pode promover. Essa formação é necessária pois são as lideranças que conduzem os principais movimentos paroquiais, além de ser os primeiros – depois dos líderes religiosos –, a darem testemunho da fé católica.

          Todavia, nas últimas décadas, de modo particular, nos últimos anos, diferentes mudanças sociais e culturais provocaram dificuldades nas ações pastorais desses membros.  Essas mudanças são reflexos de inúmeros acontecimentos, tais como: a ascensão dos Direitos Humanos, que proporcionou uma nova visão a respeito das minorias e grupos sociais menos favorecidos; a ascensão dos diálogos ecumênicos, que provocou uma abertura maior da Igreja para com o diferente; movimentos LGBTs, que favoreceram novas concepções de “famílias”; redução da natalidade, que provocou famílias menos numerosas, principalmente nos grandes centros urbanos; a era digital, que causou a criação de uma nova realidade, ou seja, a criação do mundo virtual; entre outros fatores que se esbarraram com uma catequese “engessada” por parte de muitos fiéis cristãos.

          Na medida em que boa parte dos cristãos não sabem lidar com essas realidades – não por culpa própria, mas pela educação e catequese que tiveram –, a Igreja Católica passa a se transformar em uma mera instituição do milênio passado, ou melhor, um museu da fé. E sabemos que a Igreja Católica não é isso! Além disso, “surgem ou se agravam tendências desafiadoras como o individualismo, o fundamentalismo, o relativismo e diversas formas de unilateralismos” (CNBB, §21).

          Assim, é urgente a formação das nossas lideranças, a fim de que elas possam levar a todos os homens e mulheres, nas diferentes realidades e circunstâncias sociais, culturais e existenciais, o Evangelho de Jesus Cristo, a Boa Nova. Dialogar com essas realidades não quer dizer excluir a doutrina cristã, mas sim, fazer o que o apóstolo São Paulo nos orienta em sua Epístola aos Romanos (12,2): “E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa mente, a fim de poderdes discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, agradável e perfeito”. Desse modo, é preciso nos libertamos dos modelos “engessados” da cristandade e fazer do presente, seja ele qual for e em qual circunstância estiver, um tempo messiânico, visando a gratuidade das ações e o respeito à alteridade por parte de todos os cristãos.

 

O QUE A IGREJA NOS ENSINA

          As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, apresenta, em seus primeiros parágrafos, que “Jesus Cristo é a fonte de tudo o que a Igreja é e de tudo o que ela crê. Em sua missão evangelizadora, ela não comunica a si mesma, mas o Evangelho, a palavra e a presença transformadora de Jesus Cristo, na realidade em que se encontra” (§4). Como uma de suas obrigações, as Diretrizes apresentam a formação dos leigos e leigas como uma das prioridades da Igreja particular para enfrentar o tempo presente:

          A Igreja se torna mais efetiva e frutuosa quando integrada em um projeto orgânico de formação, que contemple a formação básica de todos os membros da comunidade e a formação específica e especializada, sobretudo para aqueles que atuam na sociedade, onde se apresenta o desafio de dar ‘testemunho de Cristo e dos valores do Reino’ (CNBB, §92).

          Na Constituição Pastoral Gaudium Et Spes Sobre a Igreja no mundo atual, o Papa Paulo VI ensina que em todas as atividades pastorais, “conheçam-se e apliquem-se suficientemente, não apenas os princípios teológicos, mas também os dados das ciências profanas, principalmente da psicologia e sociologia, para que assim os fiéis sejam conduzidos a uma vida de fé mais pura e adulta” (§62). Tal proposta, apresentada pelo Papa em 1965 – o que faz dele um homem adiante de seu tempo – é uma das maneiras de possibilitar as lideranças cristãs uma maior abertura para com os a realidade contemporânea, uma vez que não podemos nos fechar apenas nos estudos teológicos. O Papa também orienta que é necessário que os leigos e leigas tenham:

uma conveniente formação nas disciplinas sagradas e que muitos deles se consagrem expressamente a cultivar e aprofundar estes estudos. E para que possam desempenhar bem a sua tarefa, deve reconhecer-se aos fiéis, clérigos ou leigos, uma justa liberdade de investigação, de pensamento e de expressão da própria opinião (§62).

          É a partir dessa luz proporcionada pelo Magistério que podemos pensar ações pastorais capazes de formar nossas lideranças cristãs em um mundo contemporâneo tão conturbado, mas, ao mesmo tempo, fascinador.

 

AÇÕES PASTORAIS

          Proporcionar ao homem e a mulher contemporânea uma formação adequada para enfrentar os desafios do anúncio do kerigma em nosso tempo, é muito mais uma obrigação conjunta de toda a sociedade do que algo exclusivamente eclesial. Todavia, o problema da sociedade contemporânea é exatamente o não querer escutar esse kerigma, ou seja, o abandono e a destruição de qualquer aspecto religioso ou princípio eclesial. Diante disso, se torna obrigação eclesial essa formação, a fim de que a contemporaneidade possa escutar e voltar a Boa Nova do Evangelho por meio da palavra e do testemunho das lideranças cristãs.

           A partir do que foi exposto no último tópico a respeito dos ensinamentos do Magistério, Jesus Cristo é fonte de tudo aquilo que a Igreja é e o que ela crê. Logo, capacitar homens e mulheres para serem anunciadores dentro e fora dessa Igreja é possibilita-los, primeiramente, a verdadeira vivência daquilo que se anuncia. Dessa forma, não basta diretrizes, normas, projetos, ou qualquer outra ação se a comunidade não proporcionar a suas lideranças um encontro com Jesus Cristo, pois, é impossível falar sobre aquilo que nós não conhecemos. Além disso, como nos ensina Papa Gregório Magno em sua Regra Pastoral, é preciso que o homem e a mulher tenham um coração contemplativo, pois, se aperfeiçoam mais facilmente no caminho de Deus, uma vez que passam a enxergar a perfeição das coisas, desde a criação divina até as obras humanas.

         Na medida em que a comunidade procura oferecer a seus fiéis um verdadeiro encontro e experiência com Jesus Cristo, é possível transmiti-los uma formação adequada dessa fé que foi experimenta. Essa formação deve abranger diferentes questões, tanto da vivência eclesial local, bem como da concretização do projeto do Papa Francisco de uma Igreja em saída. Tendo o foco a formação para o enfrentamento da contemporaneidade – objetivo dessa pesquisa –, podemos propor algumas medidas pastorais. Entre elas, é preciso que nas pregações dos líderes religiosos, sejam em encontros ou até mesmo na própria Celebração Eucarística, o líder saiba concretizar o Evangelho na realidade atual, ou seja, remodelar o Evangelho a partir das circunstâncias sociais e culturais vividas no tempo histórico em que anúncio é feito. Tal medida, aparentemente ingênua, é um modo simples de formar os fiéis nessas questões que estamos abordando.

           Uma outra ação pastoral, um pouco mais articulada, consiste em proporcionar as lideranças formações a respeito dessas novas realidades contemporâneas. Por que não realizar com os líderes dos grupos de jovens formações e discussões a respeito do sexo, homossexualidade e ideologia de gênero, para que eles possam transmitir depois aos participantes dos grupos? Por que não realizar formações com os catequistas sobre o Decreto Unitatis Redintegratio sobre o Ecumenismo do Papa Paulo VI para que os mesmos possam levar aos catequisandos abertura ao diálogo para com o irmão de outra religião? Por que não realizar formações com a Pastoral Familiar a respeito da Encíclica Humanae Vitae do Papa Paulo VI para que essa pastoral possa transmitir aos casais a visão da Igreja sobre família e sexualidade? Assim sendo, formações se apresentam como uma grande oportunidade de possibilitar as lideranças um conhecimento mais amplo da fé cristã para o enfrentamento dos desafios da contemporaneidade, como nos orienta o Papa Paulo VI Na Constituição Pastoral Gaudium Et Spes (§62).

         Uma terceira ação pastoral, que requer uma atuação maior por parte da Igreja enquanto instituição e não exclusivamente das lideranças leigas, conquiste em utilizar dos benefícios que a contemporaneidade possibilitou para seu uso próprio, isto é, as mídias televisionais e sociais. Não há nada que exerça mais influência na atualidade do que tais mídias, principalmente as sociais. Aliás, o processo eleitoral do Brasil nesse ano de 2018 foi um exemplo claro disso. Assim, promovam nessas mídias o anúncio da Boa Nova de uma maneira cativante, apaixonante e criativa. Uma promoção que leve Jesus Cristo a todas as pessoas nas diferentes realidades sociais, culturais e existenciais.

          A partir das ações acima expostas, podemos ter a esperança de afirmar o que o Papa Paulo VI disse em sua Constituição Pastoral Gaudium Et Spes (§62): “o conhecimento de Deus é mais perfeitamente manifestado; a pregação evangélica torna-se mais compreensível ao espírito dos homens e aparece como integrada nas suas condições normais de vida”.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

          A partir de tudo aquilo que foi exposto, constata-se a necessidade por parte de toda a Igreja de promover as suas lideranças uma formação adequada, principalmente em um período histórico tão conturbado com o surgimento de novos desafios. Sabemos que a Igreja Católica é divina. Todavia, está no mundo. Por estar no mundo, é preciso fazer a mesma coisa que foi feita a partir do século IV, quando a Igreja aceitou que não existia mais as estruturas confortantes Império Romano e aceitou como realidade e objetivo da missão a evangelização dos bárbaros, ou seja, aceitou a conturbada realidade atual, mas transformou-a. Da mesma forma, a Igreja por meio de todas as duas lideranças clericais e leigas não deve ignorar a realidade atual, mas aceitá-la sua existência e não medir esforços em transformá-la, para que Jesus Cristo seja conhecido e amado por todos.

 

 

REFERÊNCIAS

CNBB. Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil. 2015. Disponível em:<http://www.sagradocoracaopaulinia.org.br/uploads/publicacoes/doc102_DGAIB_2015_2019.pdf>.

 

GREGÓRIO MAGNO. Regra Pastoral. São Paulo: Paulus, 2010. vol.28

 

PAULO VI. Constituição Pastoral Gaudium Et Spes Sobre a Igreja no mundo atual. 1965. Disponível em: <http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html>.

 

 




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