A ÉTICA DA RESPONSABILIDADE EM HANS JONAS


Autor: OLIVEIRA, Ricardo Orlando
Publicado em: 19/01/2022

AS DIMENSÕES DA RESPONSABILIDADE HUMANA, A TÉCNICA E A ÉTICA DA RESPONSABILIDADE

          A obra intitulada O princípio da responsabilidade como um ensaio de uma ética para a civilização tecnológica, do filósofo alemão Hans Jonas (1903-1993), fonte principal deste trabalho, não deve ser pensada de modo separado da situação histórica na qual viveu o pensador e, tampouco, de sua experiência pessoal perante os avanços da tecnologia no século XX.

          O seu caminho intelectual pode ser pensado a partir de três momentos específicos: o seu contexto acadêmico junto de Martin Heiddeger e Rudolf Bultmann no período entre 1921 até o seu exílio em 1934 devido ao avanço do nazismo; 1966, quando publica o seu livro O princípio vida: fundamentos para uma biologia filosófica, onde tenta relacionar o fenômeno mental com o físico enquanto relação ética; e 1979, quando publica a sua obra principal sobre o princípio da responsabilidade ética. O trabalho deste autor pode ser entendido como uma resposta para os desafios de sua época, mas com grande respaldo nos tempos atuais.

           Jonas propõe este ensaio como uma espécie de manifesto em favor de uma situação/pessoa desfavorecida em vários sentidos:

A ética da responsabilidade em Jonas terá como característica combater o defeito mais forte e favorecer o lado menos beneficiado pelas circunstâncias. Nesse sentido, tal ética estará sempre do lado dos fracos contra os fortes e dos que aspiram com os que já possuem (JONAS, 2006, p. 19).

               Contudo, convém destacar que não se trata de uma apologia sentimentalista que milita e reivindica direitos a mercê do subjetivismo moral, não. Sua obra quer combater o problema que está na raiz do agir humano que tem causado danos universais devido ao progresso da técnica moderna e o seu uso de forma antiética.

            Partindo desse princípio, podemos entender a sua proposta em resposta a uma situação degradada que a humanidade alcançou, podendo piorá-la se não houver uma conversão dos parâmetros de sobrevivência. A ética jonasiana quer alcançar cada ponto referente a vida do homem moderno, de modo que, realizar um ato tenha como princípio fundamental a responsabilidade de si e do próximo em larga escala.

            Jonas começa o seu livro descrevendo a relação do homem tradicional com a natureza e com o mundo que o circundava. Para descrever um caso específico, ele relembra um antigo canto do coral da Antígona de Sófocles (séc. V a.C.), que descrevia o domínio explícito e absoluto do homem sobre as coisas naturais já em forma de técnica, com exceção da morte, final inevitável até para o mais sábio e mais hábil dos homens. Os antigos viviam de certo modo ‘‘sobre’’ a natureza e em relação harmônica com a natureza. De forma romântica, pode-se até dizer que o homem cuidava da natureza e ela cuidava do homem.

            As dimensões do agir humano nessa etapa da humanidade não beiravam senão problemas periféricos e/ou superficiais do contato com o meio em que vivia. O domínio das artes gregas técnicas, por exemplo, dizia respeito às habilidades mecânicas de subsistência por meio de pescas, navegações, confecções, consertos, agricultura em geral, dentre outras artes que, ainda que houvesse um proveito dos bens naturais, era praticamente impossível a destruição essencial da natureza desses mesmos bens devido ao consumo em baixa escala.

            Nesse primeiro estágio, segundo Jonas, não é necessário descrever uma relação ética com a natureza, mas sim o exercício da inteligência e da inventividade para o domínio da mesma (JONAS, 2006). Em um segundo estágio, agora com a construção das cidades, o autor aceita o fato de que os indivíduos começam a se relacionar mais diretamente com os seus semelhantes e buscam não mais uma relação de saber e domínio, mas de respeito e responsabilidade.

             Mas mesmo nesse estágio, a convivência civil não comprometia o meio ambiente por causa das alianças feitas entre os homens, pois, tanto na antiguidade pagã como na cristã, reinava sobre os indivíduos a valorização sincera das virtudes a serem cultivadas pessoal e coletivamente. E, em grande parte, pode-se dizer que este estilo de relacionamento hierárquico natural e respeitoso humanamente falando, perdurou até o final da idade média com os seus valores tradicionais de amor ao próximo.

            No entanto, este quadro histórico começa a mudar com a conceituação e o avanço de uma suposta ciência técnica na modernidade. Se referindo a transição das artes tradicionais para a arte moderna, diz o autor:

Tudo isso se modificou decisivamente. A técnica moderna introduziu ações de uma tal ordem inédita de grandeza, com tais novos objetivos e consequências que a moldura da ética antiga não consegue mais enquadrá-las. [...], não mais bastaria a advertência aos indivíduos para que respeitassem as leis. [...]. Isso impõe à ética, pela enormidade de suas forças, uma nova dimensão, nunca antes sonhada, de responsabilidade (JONAS, 2006, p. 39).

               Ou seja, a técnica moderna alcançou tamanho poder de ataque destrutivo que passou do simples proveito básico para o comprometimento em escala global da ordem do cosmos e do agir humano.

            Os avanços no campo das ciências práticas se tornaram a causa motriz de construção, invenção, elaboração e de aperfeiçoamento dos objetos já produzidos, mas passíveis de atualizações constantes. Essa dinâmica de apropriação da matéria natural e de fusão dessas matérias com objetos artificiais em escala cada vez maior foi comprometendo o meio ambiente natural e foi se criando um novo ambiente artificial, de novidade, de descarte, de substituição, e com isso surgiram os novos traços do próprio homem que os fez: o homo faber (JONAS, 2006).

            Enquanto as artes técnicas na antiguidade eram habilidades práticas, fruto do domínio manual como expressão do homo sapiens, a técnica na modernidade passou a expressar a dinâmica instável na qual o seu próprio criador se prendeu. Pensar na técnica agora é pensar no modus vivendi do homem, ou seja, ações como, fabricar, trocar, inventar, produzir, fazer, se tornaram sinônimos de habituar, adaptar, educar, comportar, ser, etc., onde expandir o território material e dominá-lo é “expandir” os horizontes internos: “O homo faber aplica sua arte sobre sim mesmo e se habilita a refabricar inventivamente o inventor e confeccionador de todo o resto” (JONAS, 2006, p. 57).

            Por isso que esta dominação e transformação do meio ambiente é apenas uma parte do problema, entende Jonas. Alcançando patamares extremos, a techne moderna tem procurado solucionar problemas que até então eram tidos como constituintes da condição humana ou, pelo menos, inevitáveis. É o caso da morte, por exemplo. Enquanto que na Antígona de Sófocles, citada no início do texto, o homem conquistava o poder sobre a natureza para preservar a sua vida até uma morte “saudável”, agora, a morte deve ser prolongada a futuros indetermináveis ou até evitáveis, no pior dos otimismos.

             Um outro campo onde a técnica tem se aventurado, como no caso dos controles de comportamentos, já se postula a aplicação de drogas não-medicinais para o alívio das pressões hormonais da juventude, tirando a possiblidade de desenvolver a sua autonomia física e intelectual. Em um outro caso não menos extremo está a questão da manipulação genética, onde “o homem quer tomar em suas mãos a sua própria evolução, a fim não meramente de conservar a espécie em sua integridade, mas de melhorá-la e modifica-la segundo seu próprio projeto” (JONAS, 2006, p. 61).

            Jonas está descrevendo não mais um cenário que outrora era tido como utópico em sentido hipotético, mas um quadro bastante próximo e preocupante. O autor entende que as ciências passadas procuraram responder os seus desafios e que, mesmo com pretensões futuristas, como no caso do marxismo, não passaram de rotulações de usufruto do presente. De modo contrário, Jonas entende que o agir humano deve ser acompanhado de uma ética a sua altura. Isto é, já que a técnica alcançou poderes jamais pensados como possíveis, o saber técnico deve ser conduzido por um saber previdente e com um aspecto de humildade diante de toda a capacidade que o homem contemporâneo tem de destruir-se a si mesmo e o meio em que vive, levando em consideração a sobrevivência das gerações futuras não a todo custo, mas de modo justo e digno de um ser humano pela efetivação de uma ética da responsabilidade.

            Antes de mais, Jonas descreve uma espécie de sentimento preventivo que se deve cultivar diante da nova proposta ética a ser feita, chamada de heurística do medo. Tendo em vista a capacidade destrutiva que o homem moderno alcançou em relação a natureza física e a sua essência, com um impacto mais significante nas gerações futuras, convém agora agir segundo uma previsão de perigo diante do novum a ser buscado. Isto é, não se justifica uma pesquisa técnica apenas pelo fato de ser uma nova descoberta mesmo que tenha resultados promissores, pois não se pode haver técnica autêntica se não estiver unida a categorias de bem, de dever e de ser, ou seja, em partes, pautada por uma abordagem metafísica (JONAS, 2006).

            Em outras palavras, contrariando o imperativo categórico kantiano age de tal forma que queiras que tua máxima se torne lei geral, a ética jonasiana parte de um princípio não particular para o geral, mas do geral para o particular. Diz ele:

Aja de modo que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma autêntica vida humana sobre a terra. [...]. Eu posso querer, assim como o meu próprio fim, também o fim da humanidade. [...] o novo imperativo diz que podemos arriscar a nossa própria vida, mas não a da humanidade (JONAS, 2006, p. 47-48).

            Ou seja, uma ética responsável não visa somente o bem pessoal, mas tende a universalizar as ações segundo suas consequências para a futura geração.

            No entender de Jonas, isso não quer dizer que seja fácil uma tal justificação ética e, sem a religião, talvez seja praticamente impossível, pois se trata de preservar direitos de seres que nem existem ainda no plano físico. Por isso, devemos “estender a reflexão sobre as implicações mencionadas e avançar além da doutrina do agir, ou seja, da ética, até a doutrina do existir, ou seja, da metafísica, na qual afinal toda ética deve estar fundada” (JONAS, 2006, p. 42).

            Partindo deste princípio, a ética jonasiana retoma o conceito de Ser e as suas propriedades especulativas, descartadas pelas éticas modernas de um modo geral, mas com um viés prático para a preservação da espécie humana. Para justificar essa ética futurista é necessário compreender que o Bem para o qual todas as coisas tendem naturalmente, implica por si mesmo uma finalidade que provoca o dever do agir segundo os valores optados. Em outras palavras, o avanço técnico como causa do agir não se justifica mais, devido a sua falta de causa e finalidade naturais, sendo apenas um instrumento neutro em si mesmo (JONAS, 2006).

            Esse aspecto ontológico da nova ética se torna essencial para a composição de um princípio de responsabilidade na ação humana, pois, pensar em agir para a preservação do próximo e do meio ambiente é saber-se parte de um cosmos causado pelo Ser e ordenado para ele. Se é assim, preservar a espécie se torna uma finalidade em si mesma que exigirá a abnegação de certos prazeres pessoais advindos da técnica ou de qualquer outro artifício que promova a negação do Ser e da finalidade das coisas. “O homem bom não é aquele que se tornou um homem bom, mas aquele que fez o bem em virtude do bem” (JONAS, 2006, p. 156). Nesse sentido, a moralidade é apenas o meio para se chegar ao fim.

            Um outro aspecto importante e decisivo do princípio da responsabilidade é a abnegação da vontade e da obediência que o bem exige e que é capaz de mover o querer da ação responsável:

Para que algo me atinja e me afete de maneira a influenciar minha vontade é preciso que eu seja capaz de ser influenciado por esse algo. Nosso lado emocional tem de entrar em jogo. E é da própria essência da nossa natureza moral que a nossa intelecção nos transmita um apelo que encontre uma resposta em nosso sentimento. É o sentimento de responsabilidade” (JONAS, 2006, p. 156).

            Isso parece causar a diferença mais significativa entre um agir responsável e o irresponsável. Movido pela técnica, isto é, pelo progresso tecnológico a todo custo, o homem moderno abandona as questões ontológicas e essenciais tanto da natureza quanto do próprio homem e do Ser do qual ele tira a própria existência.

            É este sentimento que torna as pessoas sensíveis umas às outras. Não se trata aqui de sentimentalismo, pois Hans Jonas descreve-a como condição básica de moção do querer particular em uma perspectiva coletiva. O exercício intelectual pode até ser considerado o primeiro meio a buscar novas experiências e encontrar novas soluções para problemas reais, mas somente encontrará o consentimento para a sua ação na aceitação sentimental não advinda das máquinas, e sim do próprio homem consciente que é responsável pela permanência da sua espécie.

 

REFERÊNCIAS

JONAS, Hans. O princípio responsabilidade: Ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC-Rio, 2006. 354p.




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